quinta-feira, 8 de agosto de 2019

1925 - O NOVO CONFRONTO ENTRE O VASCO E A AMEA


O SEGUNDO ROUND CONTRA A INTOLERÂNCIA E O PRECONCEITO

Tendo o Vasco se retirado da AMEA da qual também era fundador em 1924, foi NOVAMENTE convidado no ano seguinte pela mesma entidade a participar da liga com todas as garantias de fundador e permanência dos seus jogadores campeões de 1923 e 1924. O Vasco era então o campeão de assistência e o interesse do público havia diminuído pelos clubes de elite no campeonato da AMEA,  no ano em que os Camisas Pretas ficaram fora da competição. Mas a proposta era um subterfúgio para esmagar a Resposta Histórica de 1924.  Aqui vemos um raro registro do novo confronto entre o Vasco e a AMEA na defesa de seus jogadores amadores que ao mesmo tempo eram sócios do clube, na reprodução da coluna publicada pela revista Theatro & Sport de 18 de abril de 1925, com a grafia original da época:



O Vasco deixa de novo a AMEA?

...

Estourou quinta-feira como uma bomba, nas rodas sportivas, a nota sensacional de que o Vasco deixará novamente a Amea, no caso da directoria desta persistir no propósito de excluir varios dos melhores "players" vascainos.

Corroborando essa versão, é sabido que a directoria do Vasco, em gesto altivo e nobilitante, devolveu o officio que em a Amea scientificava a exclusão de diversos elementos do primeiro quadro.

A directoria do Vasco viu, nesse procedimento da associação a que em má hora si filiou, não só um ludibrio ao pacto verbal estabelecido entre as duas partes, como tambem uma consequencia do terceiro ha dias realizado, em que o team do Fluminense foi derrotado pelo quadro vascaino.

Ficou ainda resolvido, que o Vasco não disputaria o campeonato da Amea, caso não visse resolvida a pendencia a seu favor.

Como quasi certo que a associação dos "grandes" não transija dos seus propositorios, o caso do sport carioca vae complicar-se ainda mais.  E assim deve ser porque o Vasco, desligado como está da Metro, não se poderá valer do recurso do anno passado.  É com isso que contam vencer os ameitas.

A esse proposito, corria hontem com insistencia o boato de que o Vasco estava procurando um entendimento com os clubs acima e mais alguns outros, com o fim de constituirem uma nova organização sportiva, que tem por fim quasi exclusivo guerrear de morte a aristocratica associação dos grandes.

Tal cousa não nos surprehende, porquanto era sabido que o principal fito da Amea, procurando o desligamento em massa dos clubs da Metro, era deixal-os ao abandono, como succede com o Andarahy e Carioca, que só serão aceitos se constituirem seus teams com gente não operaria, e o Mackenzie, que não é aceito por não ter campo nem séde.

Tudo isto estava no programma, tudo sido posto a nú destas columnas. Era só uma questão de tempo.




A VITÓRIA DO VASCO E O TERCEIRO ROUND: SÃO JANUÁRIO!

Como só o Vasco é capaz de superar o ser mitológico Adamastor (citado nos Lusíadas quando nosso patrono dobrou o Cabo das Tormentas que se tornou da Boa Esperança), VENCEU O SEGUNDO ROUND, acabando a AMEA por recuar do seu objetivo, evidenciado na intolerância e no preconceito, acatando todos os jogadores vascaínos e mantendo os direitos de fundador!  Ainda assim a associação fez ao clube mais uma exigência, assumida com altivez e coragem indômita, possuir seu próprio campo! O resultado do TERCEIRO ROUND todos conhecemos, a construção do Gigante da Colina - São Januário!

*Vascainidades

O gol da vitória do team principal do Vasco sobre o Fluminense pelo placar de 2 a 1, a 17 de maio de 1925, no campeonato da AMEA



terça-feira, 6 de agosto de 2019

O JOVEM ANTONIO SOARES CALÇADA


Antonio Soares Calçada em 1953


O ex-diretor de tênis de mesa do coronel Póvoa é, hoje, o lugar-tenente de Cyro Aranha em seu terceiro mandato presidencial.  Bem poucos conseguiram subir tão alto, em tão pouco tempo como esse moço industrial (bebidas, rua do Senado) de 29 anos, que surgiu no Vasco em 1936, como sócio juvenil, dois anos depois de ter desembarcado (procedente de Lisboa) na praça Mauá.

Calçada hoje é sempre uma grande notícia de jornal.  É um nome que está na caderneta de todos os jornalistas esportivos.  É um sujeito que, às vezes, acorda no Rio, almoça em São Paulo e janta em Belo Horizonte no mesmo dia.  è o "enfant-terrible" da administração Cyro Aranha, dirigindo, com muita atividade, a Divisão de Compras (ele pede para esclarecer que não é de jogadores) e sendo o elemento de ligação entre a presidência e o departamento de futebol.

Tudo o que se passa dentro do Vasco ele sabe e Guarda melhor do que ninguém.  em nenhum outro dirigente atual - sem exagero ou favor - Cyro confia tanto quanto no Calçada.  Por isso mesmo a velha guarda e a tradicional turma do bate-papo que se reúne, todas as tardes, na sede do Vasco já andam enciumadas, culpando o rapaz por muita coisa, muitos chegando mesmo ao extremo de dizer que "ele é quem está levando Cyro Aranha para o mau caminho".

Calçada, entretanto, não dá ouvido à oposição, está perfeitamente tranqüilo e certo de sua força e de seu prestígio, nunca compra prego sem consentimento e a ciência de "seu" Cyro, apesar dos empates do Vasco mantém-se calmo e tem engordado muito.

Conhece todos os jornalistas, dá-lhes, a todos, indistintamente a atenção devida, embora, quando queira ira a São Paulo buscar o Julinho, Djalma Santos e Brandãozinho, procure despistá-los tanto quanto possa - e os indiscretos companheiros de diretoria permaneçam calados.  Prestigiou Gentil Cardoso, apoiou a volta de Flávio Costa, esteve em Santiago e em Buenos Aires chefiando a delegação do Vasco, conversou com Peron, é muito estimado pelo Cordinha, desgostado pelo João da Silva (diretor de futebol), dedica umas oito horas por dia ao Vasco, não falta à sede, ao estádio, à concentração e aos almoços (diários) com o presidente Cyro Aranha. Que é a melhor hora que encontra para o seu "despacho".

*OS DONOS DO VASCO - trecho do artigo do jornalista Araujo Netto e foto de Gervásio Batista para a Revista Manchete em outubro de 1953

Esta é uma singela homenagem à memória vascaína de Antonio Soares Calçada, Presidente de Honra e Grande Benemérito do Club de Regatas Vasco da Gama, que conquistou todos os títulos já conquistados pelo grande presidente Cyro Aranha e mais.


Calçada e Flávio Costa (acervo Arquivo Nacional)


✩16 de abril de 1923
✞5 de agosto de 2019

domingo, 19 de maio de 2019

A CRUZ ENCARNADA DO VASCO É A CRUZ DA ORDEM DE CRISTO

ARTISTA PORTUGUÊS INSPIROU A CRUZ ENCARNADA NA FUNDAÇÃO DO CLUB


A Cruz de Cristo, popularmente chamada de "Cruz de Malta", 
adorna o Estádio Vasco da Gama desde sua inauguração em 1927


Há um tempo atrás, tivemos oportunidade de fazer breves considerações sobre a "A Cruz de Malta" como símbolo vascaíno.


A Cruz de Cristo no uniforme vascaíno de 1900
registro fotojornalistico de Paschoal Segretto - acervo: Biblioteca Nacional


Após nos debruçarmos em longa pesquisa, conseguimos elucidar várias dúvidas que foram mantidas como mito por anos a fio.


A Cruz de Cristo no uniforme vascaíno de 1901
 acervo: Biblioteca Nacional


Como já dissemos, o tempo é o elemento corrosivo da memória oral. Perderam-se a sabedoria dos pioneiros vascaínos, os pormenores do contexto da fundação e o porquê da vontade dos fundadores designarem, em ata da assembléia geral, a Cruz de Cristo vascaína como "Cruz de Malta Encarnada" quando da criação do primeiro uniforme do Club (06/09/1898). Memórias perdidas com o passar dos anos, de modo que, nos festejos do cinquentenário do Vasco (1948), já se havia esquecido por completo. O que era de conhecimento comum e não escrito, sumira da lembrança!


A Cruz de Cristo no uniforme vascaíno de 1913
acervo pessoal

Resgatamos, por exemplo, que a vontade dos fundadores foi a de se adotar a Cruz de Cristo encarnada como ficou registrada na iconografia da época, que em sua maior parte buscou a simplificação, sem que se contivesse a cruz branca interna na mesma cruz da Ordem de Cristo. Revelamos também que, no contexto da época, independentemente da vinculação com o Club, a designação "Cruz de Malta" tinha um caráter popular que se referia ao design heráldico das cruzes páteas (toda cruz, independentemente da ordem religiosa e equestre, que tenha pontas abertas é uma cruz pátea) e assim verificamos que não se tratava da cruz da Ordem dos Hospitalários de Malta, e sim da cruz da Ordem Militar de Cristo enquanto designativo (nome) próprio da referida Ordem.


A Cruz de Cristo no uniforme vascaíno de 1923 
que inspirou as insígnias do Stadium Vasco da Gama
acervo: "image 2 you"

Por óbvio, em Portugal, ninguém se referirá à cruz pátea da Ordem de Cristo como sendo uma "Cruz de Malta", pois se trata de um símbolo nacional enraigado na história lusitana! Já no estrangeiro, há diversos casos de se referirem à Cruz (da Ordem Militar) de Cristo como sendo uma "Cruz de Malta", e assim era também em nosso país ao tempo da fundação do Club de Regatas Vasco da Gama, como exemplificamos em nosso artigo anterior.

A Cruz de Cristo na bandeira vascaína em 1925
revista Illustração Sportiva

Ainda esclarecemos que o signo do Club tem relação direta com a história das grandes navegações portuguesas, em especial, com os festejos do IV Centenário do Descobrimento do Caminho das Índias por Vasco da Gama (1898), sem nenhuma conotação com qualquer outra Ordem religiosa militar e equestre (leia o artigo completo acessando o link:
http://www.memoriavascaina.com/2016/01/brevissimas-consideracoes-sobre-cruz-do.html).


A Cruz de Cristo na bandeira vascaína em 1927, 
na benção que antecedeu a inauguração do Stadium, pelo Bispo Dom Mamede 
revista Revista da Semana - acervo: Biblioteca Nacional


Seguindo o critério adotado pelos fundadores para o signo do Club, temos as naus da esquadra de Vasco da Gama, que aportou em Calicute em 20 de maio de 1498 - e, como todos sabemos, em suas velas estava estampada a Cruz da Ordem Militar de Cristo.


A Cruz de Cristo encarnada e simplificada por Roque Gameiro nas velas portuguesas
A Partida de Vasco da Gama para a Índia em 1497 - Acervo: Biblioteca Nacional de Lisboa



A Cruz de Cristo encarnada e simplificada por Roque Gameiro nas velas portuguesas
Na chegada de Vasco da Gama a Calicute em 1498 - Acervo: Biblioteca Nacional de Lisboa


Diante do contexto histórico no momento da fundação, duas obras se destacam e serviram de esteio para a adoção da cruz encarnada: as gravuras produzidas por Roque Gameiro, uma sobre a partida da esquadra do navegante português; a outra com a chegada a Calicute. Nelas estão representadas, nas velas da esquadra de nosso patrono, a Cruz de Cristo, inteiramente encarnada, simplificada pelo afamado artista, e que serviu de inspiração para a adoção da mesma cruz pelos pioneiros fundadores! Essa é a origem da Cruz do Vasco, encarnada, grega (formato quadrado), e pátea (pontas abertas), resultado de uma liberdade artística do tempo dos festejos do IV Centenário do Descobrimento dos Caminhos das Índias!


A Cruz de Cristo estampada no uniforme dos campeões do Torneio Teresa Herrera em 1957
acervo: Centro de Memória do Club de Regatas Vasco da Gama



Vascainidades:

(1) Um pouco sobre Roque Gameiro, no seu tempo - publicado em 06 de abril de 1898 pelo jornal português O Seculo:  "Poucos artistas tem conseguido evidenciar-se de forma tão notável, de maneira tão distincta, impondo-se pelo trabalho e pelo seu talento como Roque Gameiro, alheio a cateries e a reclamos, modestissimo e ingenitamente bondoso.
O seu nome assoma a todos os labios quando se tratam questões de arte, e com lidima razão. Roque Gameiro, alem de ser hoje o nosso primeiro aquearellista é, sem duvida, tambem um de nossos mais laureados desenhadores. Dispondo de aptidões de trabalho que completam as suas magnificas qualidades de artista, Roque Gameiro é dos que mais produzem, senão aquelle que mais produz.
Os trabalhos que a rubrica elegante do seu nome salientam á attenção publica são sem conta. Ainda ultimamente o publico teve occasião de o palmear pelo symbolico e bisarrantre cartaz do Centenario, bem como pelo gracioso quadrosinho destinado a brinde da Casa Bertrand, e representando a chegada de Vasco da Gama a Calecut.
Entre muitas aquarellas e desenhos que presentemente occupam a prodigiosa actividade do sympathico artista, destacam-se os seguintes trabalhdos destinados ao Seculo: aquarella para capa do Album Commemorativo do Centenario e uma grandiosa aquarella representando Mousinho de Albuquerque na companha contra os namarraes, que servirá de primeiro brinde ao assignantes da Madame Sans-Géne.
Finalisando esta noticia damos aos nossos leitores a boa nova de que o nosso distincto collaborador artistico illustrará com delicadas vinhetas o romance historico que  Seculo vae encetar brevemente em folhetins, devido á penna de Anonio Campos Junior, e que terá por titulo Guerreiro e monge.
Desnecessario é augurar á publicação  um successo, visto por si só garantia bastante de que o novo folhetim do Seculo constituirá um verdadeiro acontecimento." (grafia da época)


(2) O Vasco quase foi Azul e Branco, mas a Cruz de Cristo era definitiva! - O fundador José Lopes de Freitas, um dos 5 pioneiros que idealizou o Club de Regatas Vasco da Gama, pouco antes de sua morte em 1947, teve relação muito próxima com o Grande Benemérito Álvaro do Nascimento, cognominado Cascadura, tendo transmitido a este todas as suas lembranças acerca da fundação, que foram no entanto, esparsamente difundidas. Tanto José Lopes de Freitas, quanto Cascadura eram homens da imprensa, tendo este último trabalhado no jornal Rio Sportivo nos primórdios do futebol, e com Mario Filho trabalhou também no Jornal dos Sports. Em homenagem a José Lopes de Freitas, que utilizava o pseudônimo de "Zé da Praia", adotou Cascadura o pseudônimo de "Zé de São Januário", ao escrever durante muitos anos a coluna "Uma Pedrinha na Chuteira".  Por conta dessa colaboração, alguma informação sobre a fundação do Vasco foi retransmitida a Mário Filho, que por sua vez era sócio de Roberto Marinho no Globo Sportivo.  Numa dessas colunas escritas por Mário Filho no Globo Sportivo de 24 de agosto de 1945, externou um desses detalhes sobre a escolha do signo e das cores vascaínas que reproduzimos abaixo:



(3) Começaram hontem, no Club Gymnstico Portuguez as festas commemorativas do 4º centenario do descobrimento da Índia. (...) continuou a festa assim organisada: 2º parte - Escola de gymnastica, direcção do consocio Sr. José Lopes de Freitas... A ultima parte da festa foi um animado baile, que prolongou-se até ás 5 horas da manhã de hoje" (jornal Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1898). Acerca desse evento, Cascadura publicou uma pequena manchete no Jornal dos Sports de 10 de agosto de 1948:


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Nossos agradecimentos à historiadora Glaucia dos Santos Garcia, ao pesquisador Alexandre Mesquita, e ao historiador Walmer Peres Santana.