quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

BREVÍSSIMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A CRUZ DO CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA



A Cruz de Malta é o símbolo Vascaíno! Assim disseram nossos fundadores. No entanto, durante anos a fio, dúvidas foram levantadas quanto ao acerto dessa afirmativa. Não é de hoje o debate entre os vascaínos conhecedores da história do clube, cuja incerteza é alimentada pelo passar do tempo, elemento corrosivo da tradição oral, que favorece o dito pelo não dito, por vezes com razão, por vezes não!

Estas brevíssimas notas são o ponto de partida para um estudo mais aprofundado sobre o tema que procurará elucidar todas as questões inerentes às duvidas criadas desde a fundação do Club de Regatas Vasco da Gama.



A atual Cruz de Malta do Club de Regatas Vasco da Gama

A atual formatação da "Cruz de Malta" vascaína foi adotada definitivamente no uniforme do clube a partir da década de 1960.

Escudo do Vasco com a atual Cruz de Malta (site oficial)


Em 1934, não se sabe se por um equívoco, uma variante da atual cruz aparece pela primeira vez no uniforme vascaíno. O fato é que a mesma desaparece logo a seguir e só volta a reaparecer esporadicamente durante as décadas de 1940 e 1950.

               
                                          Domingos da Guia em 1934                                     Revista do Esporte - 1960
                                                                                    (Acervo do benemérito Itamar de Carvalho) 


Seu uso recente, deveu-se à interpretação tardia e equivocada da definição histórica e popular do que seria a "Cruz de Malta" com formato que não corresponde ao da cruz originária da fundação do clube.

Frente e verso de medalha do Vasco nos primórdios do clube
com o primeiro brasão de 1899 e a Cruz de Cristo
(Acervo particular)



O formato equivocado da atual cruz

Apesar de estar designada como “Cruz de Malta” na ata da reunião de diretoria que estabeleceu o escudo oficial vascaíno, era em sua forma original uma "Cruz (da Ordem) de Cristo"!

(Atas da Diretoria, 06 de setembro de 1898 - site oficial do C. R. Vasco da Gama)


Fotografia de vascaínos uniformizados em 1900
com o escudo da Cruz de Cristo
(acervo pessoal)



A origem da cruz da fundação

Não há dúvidas de que a cruz adotada pelos fundadores – tanto em sua forma quanto em sua designação – tem relação com as comemorações do IV Centenário do Descobrimento do Caminho das Índias por Vasco da Gama.

1898 - Feira Franca de Lisboa


É necessário ainda ressaltar que o próprio almirante português, em data posterior à descoberta, sagrou-se cavaleiro da Ordem de Cristo, assim como o fato de as naus portuguesas envergarem exclusivamente em suas velas, a cruz daquela ordem, não tendo nenhum dos dois casos qualquer relação com a Ordem Militar de Malta.

Desta forma, a cruz vascaína é, definitivamente, a "Cruz de Cristo".

Vasco da Gama envergando o medalhão de Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo
Obra de 1838 do afamado pintor português António Manuel da Fonseca


Armada Portuguesa envergando em suas velas a insígnia da Cruz de Cristo
Códice de Lisuarte de Abreu produzido no século XVI



A cruz encarnada do Vasco

A cruz encarnada do Vasco teve origem, em grande parte, na iconografia popular produzida em Portugal à época das comemorações do IV Centenário do Descobrimento da Índia, que ilustrava uma Cruz de Cristo sem a cruz grega branca (ou vazada) em seu interior (esta representativa da inocência dos templários). No caso das representações coloridas, a cruz é mostrada, na maioria das vezes, na cor vermelha ou encarnada.

Bandeiras da Ordem de Cristo (com a cruz inteiramente encarnada) e de Avis 
Década de 30 do séc. XX - Funchal - Ilha da Madeira - Foto: Franz Grasser
(Acervo da Universidade de Dresden)

  
Aquário Vasco da Gama - Dàfundo - Portugal


Tal iconografia lusitana pode ser justificada pela liberdade artística dos autores e pela tendência à simplificação a fim de obter melhor reprodução das imagens pela tecnologia disponível na época. Se por um lado, a litografia favoreceu a popularização da imagem, ainda não era possível alcançar grande precisão de detalhes, especialmente quando se tratava de suportes de formato muito reduzido como selos e bilhetes postais.

Selos portugueses lançados em 1898 em comemoração ao IV Centenário da Descoberta do Caminho das Índias


Somos todos cruzmaltinos sob a Cruz de Cristo

Este é um ponto que gera grande confusão entre todos aqueles que tentaram interpretar a questão, bem como da própria “Cruz de Malta”, e por vezes já foi utilizado como argumentação de conotação jocosa contra a cruz dos fundadores.

A síntese para o entendimento do seu desenho e forma se resume ao seguinte: a) A interpretação heráldica; e b) A interpretação popular.

A interpretação heráldica define como sendo a "real Cruz de Malta" aquela adotada pela Ordem de Malta (Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta), também conhecida como "Cruz de Amalfi" (cidade no sul da Itália), com pontas bifurcadas, estabelecida por ordem papal no século XII, que doravante assim passaremos a designar para fins de nossos estudos.

A Cruz de Amalfi da Ordem Militar de Malta



Já cruz adotada pela Ordem de Cristo teve sua origem e inspiração na Cruz dos Templários, com pontas abertas sob o ângulo de 45 graus.

A Cruz de Cristo como descrito  no
Livro da Regra da Ordem Militar de Cristo
(Acervo da Biblioteca Nacional de Portugal)


Anteriormente, a cruz advinda dos templários foi utilizada igualmente no século XIII pela própria Ordem de Malta em Portugal, cujo formato é usado hoje em dia pelo Vasco, passando por modificações até a forma adotada pela Ordem de Cristo, sucessora dos bens dos templários em Portugal.

Selo funerário do Prior da Ordem de Malta
"Nova Historia da Militar Ordem de Malta, e dos Senhores Grão-Priores Della, em Portugal",
por José Anastácio de Figueiredo Ribeiro (1793)


Daí temos que todas as cruzes derivadas dos templários são definidas pela heráldica como páteas ou patadas, devido às pontas abertas, pisadas, amassadas, espalhadas ou patées (em francês).

A interpretação popular, advinda provavelmente do francesismo, ou do estrangeirismo, conhece e chama como Cruz de Malta todas aquelas que são cruzes páteas, sejam elas de quais formatos forem. Assim se dá com a "Cruz de Cristo"; com a Cruz dos Bombeiros (nos países de tradição anglo-americana); com a "Cruz de Ferro" alemã etc.

O referido estrangeirismo teve influência sobre a cultura brasileira na segunda metade do século XIX, mantendo-se a tradição oral até fins da década de 1910. Há inúmeros exemplos publicados na imprensa em que, sem qualquer relação com o C.R. Vasco da Gama, a Cruz de Cristo é designada como Cruz de Malta.

O marco da fundação da Cidade do Rio de Janeiro ao tempo em que estava no Morro do Castelo e
 a Cruz de Cristo no lado oposto, que hoje se encontra na Igreja dos Capuchinhos
A revista "O Malho" de 1910 designou a Cruz de Cristo como sendo de Malta
(Acervo: Biblioteca Nacional - Foto: Acervo Particular)



Interpretação Heráldica - A Chancelaria das Ordens Portuguesas informa que a Cruz de Cristo na medalha e na placa da atual ordem honorífica é pátea (site oficial da presidência de Portugal)



Interpretação popular - Na placa comemorativa do Congresso Internacional da História dos Descobrimentos, a Cruz de Cristo é designada pelo Royal Greenwich Museum (Inglaterra) como sendo de Malta (Site do Royal Museums Greenwich


Interpretação popular - A cruz pátea dos Bombeiros Americanos, sem qualquer relação com o formato da Cruz de Amalfi, é designada como sendo de Malta (site do New York City Fire Department)


Interpretação popular - A Cruz de Ferro honorífica alemã criada no século XIX, à semelhança da que está adotada atualmente pelo clube, é designada como sendo de Malta, (Em uma simples procura pelo termo "Croix de Malte"  no site do Google, tal cruz é a que tem a imagem mais reproduzida)


Assim, somos cruzmaltinos, uma vez que o Vasco é o repositório de uma secular e acertada tradição oral, representada pela Cruz de Cristo!


Da fundação ao Expresso da Vitória - ali estava a Cruz de Cristo! 
(fotos: acervo pessoal)



* As imagens cujas fontes não foram citadas, foram recolhidas de diversos sites na internet

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