quinta-feira, 24 de setembro de 2015

HÁ 110 ANOS, O VASCO TORNAVA-SE CAMPEÃO DE MAR NAS ÁGUAS DA GUANABARA



Clube foi o primeiro campeão na inauguração do Pavilhão de Regatas



   Hoje, 24 de setembro, comemoramos a conquista do primeiro título do Club de Regatas Vasco da Gama, o Campeonato do Rio de Janeiro. Passados 110 anos desse glorioso feito, vamos contar um pouco da trajetória do clube em suas sedes no Largo do Passeio, postas abaixo para as obras de urbanização do então prefeito Pereira Passos, o Grupo dos XIII, a aquisição da Procelária, o retorno de João Jório ao clube, e a conquista inédita no dia da inauguração do famoso Pavilhão de Regatas na enseada de Botafogo.


As sedes do Vasco no Largo do Passeio, atual Praça Mahatma Gandhi




   Após sair da sua sede na Ilha das Moças, por decisão dos seus sócios, o Vasco trilhou o caminho do crescimento ao alugar, em julho de 1899, sua sede de frente para o mar junto ao Passeio Público. Era localizada na então Travessa do Maia, n.º 15, ao lado dos demais centros náuticos. A Garagem que se tornaria sua sede ao longo de seis anos era construída sobre um muro de cantaria de pedras, possuindo amplo espaço, um torreão e um mastro militar, de onde se desfraldava o pavilhão vascaíno. Ali o clube aumentou tremendamente seu quadro social e sua flotilha, o que ajudaria a galgar as vitórias a que estava destinado.

   Tal crescimento fez com que o clube alugasse mais dois prédios, um defronte à própria sede na Travessa do Maia, n.º 10A e outro na Rua do Passeio n.º 13, que após as obras de 1904 foram interligados num único imóvel com duas frentes, onde foram instaladas a secretaria, garagem, vestiário, aula de ginástica, linha de tiro. Em sua sede passou a funcionar somente o salão social para a reunião dos sócios e o chá das sextas-feiras.

   Com o bota-abaixo promovido pela prefeitura do então Distrito Federal, toda a área do Largo do Passeio foi demolida. Em setembro de 1905, o Vasco foi provisoriamente instalado pela prefeitura na Rua Luiz de Vasconcellos, n.º 14, até sua transferência definitiva para a histórica sede da Rua Santa Luzia, em 1906.

   Portanto, o Vasco trilhou para a glória instalado defronte ao mar, no Passeio.


O Grupo dos XIII

  Na sua histórica trajetória, contou o Vasco com a colaboração de um grupo de sócios que atuou de forma crucial para o engrandecimento do clube. Era o Grupo dos XIII, de onde despontava o seu presidente negro, eleito pelo quadro social, Candido José de Araujo; os irmãos Carvalho Silva; Anibal Peixoto; dentre outros. Foram esses sócios pioneiros que, na ausência do seu presidente honorário Alberto Carvalho Silva, determinaram os caminhos de glória do Vasco.




A Procelária

   O grupo dos XIII e o quadro social já estavam decididos a conquistar o maior título do remo brasileiro. Para tanto, precisava adquirir uma yole de primeira linha, encomendada em fevereiro de 1905, foi fabricada na França pelo estalaleiro Dossumet, ao custo de Fr 4.028,20 (quatro mil e vinte e oito francos e vinte cents). Chegou ao Brasil pelas mãos de Alberto Carvalho Silva, no mesmo navio em que retornou da Europa. Não se mediu esforços para a sua aquisição e seu nome já havia sido escolhido. O termo Procelária, (Procellaria, na grafia de 1905) designa as aves que singram a crista das ondas e anunciam as tempestades. Deste modo, o Vasco com o Grupo dos XIII se tornou um clube vencedor!


Praia do Boqueirão do Passeio - 1906
Revista da Semana (Acervo Biblioteca Nacional)


O retorno de João Jório

   Ao iniciar os treinos da temporada, a guarnição de veteranos ainda não estava definitivamente formada. Faltava um remador em especial: João Jório. O Grupo dos XIII não mediu esforços para convencê-lo a voltar ao Vasco em abril de 1905. Assim anunciaram os jornais da época!


João Jório envergando o uniforme
da Federação Brazileira das Sociedades de Remo


O Campeonato Rio de Janeiro

   O Campeonato do Rio de Janeiro era o páreo de honra que a Federação Brazileira das Sociedades de Remo designou para a conquista do grande título do ano. Era disputado em prova única pelas guarnições das yoles-franches a oito remos dos diversos clubes náuticos. Quem contasse com a melhor guarnição receberia a medalha de ouro da mão do Presidente da República, na época, Rodrigues Alves, e o clube seria dono dos dois troféus da maior prova do remo brasileiro: o L'E'pave, ofertado pela federação, e o troféu presidencial, representado pelas peças náuticas. A prova seria realizada no novíssimo Pavilhão de Regatas, de telhado azul e detalhes dourados.


Pavilhão de Regatas


Vasco conquista seu primeiro título e se torna o campeão da inauguração do Pavilhão de Regatas

   A regata estava marcada para 27 de agosto, no dia seguinte se daria a mudança do clube para a Rua Luiz de Vasconcellos. No entanto, o famoso Pavilhão de Regatas, mandado construir pela Prefeitura do Distrito Federal para os clubes náuticos, ainda não havia sido completado. A Federação Brazileira das Sociedades de Remo, apoiada por todos os clubes federados, remarcou a competição para 24 de setembro. O Vasco ainda teria um mês para treinar sua guarnição na Procelária.

   No dia designado, compareceram as mais elevadas autoridades da República. Era um evento social da maior importância, a ponto de rivalizar com o turfe. O Vasco mandou alugar uma barca que saiu às 11 horas do Cais Pharoux, levando consigo remadores e associados para melhor assistência da prova.

   Às 15:10h era dada a largada do 8.º páreo do campeonato. A disputa foi ferrenha, e a partir da baliza 9 a Procelária despontou à frente do barco segundo colocado do Boqueirão do Passeio, sob os aplausos do público presente à Enseada de Botafogo. A guarnição gloriosa correu e venceu com o tempo de 7 minutos e 10 segundos!


Ao fundo , o momento em que a Procelária cruza a linha de chegada
Revista O Malho (Acervo Biblioteca Nacional)


   O Vasco conquistava assim seu primeiro título de campeão da cidade, o primeiro do Pavilhão de Regatas!


Revista da Semana (Acervo Biblioteca Nacional) 


   Foram heróis dessa epopeia vascaína: Lucindo Saroldi (patrão); Antonio Taveira (voga); Albano da Costa Fonseca (sota-voga); Manuel da Silva Rabello (contra-voga); Raimundo Martins (1.º centro); João Jório (2.º centro); Manuel Rezende (contra-proa); Joaquim Duarte Guedes (sota-proa); João Saliture (proa).

   Cândido de Araujo foi reeleito presidente do Vasco para o ano de 1905 e 1906; a guarnição de seniors venceu seu páreo com a mesma Procelária; e o Vasco viria a conquistar o bicampeonato em 1906 com a nova guarnição de veteranos da Procelária.


L'E'pave - Quadro de Honra dos Campeões de 1905 - Troféu oferecido pelo Presidente Rodrigues Alves

*Centro de Memória do Club de Regatas Vasco da Gama

domingo, 6 de setembro de 2015

O PRIMEIRO UNIFORME DO VASCO


Há 117 anos os vascaínos criavam o primitivo uniforme do clube!


   Qual vascaíno nunca debateu a respeito da preferência entre a utilização da camisa preta ou da camisa branca nos jogos de futebol? Essa é uma discussão quase que inata aos torcedores de futebol do Gigante da Colina, podendo influenciar até mesmo àqueles que se dizem indiferentes a essa questão.

   Os defensores de cada opção procuram legitimar a sua preferência através da história, lançando mão das mais variadas justificativas, como, por exemplo, fazendo referência a jogos e conquistas inesquecíveis em que tal uniforme foi usado em campo.

   O uniforme de um clube é mais do que simples vestimenta para eventos sociais ou competições esportivas, soma-se a isso os demais símbolos como flâmula, escudo e bandeira.

   De fato, as cores e os símbolos representam os ideais e os princípios de uma instituição. O mês de setembro é um período bastante significativo para a escolha dos primeiros símbolos do Vasco. Por isso, viemos resgatar a criação do primeiro desses símbolos, de tão pouco conhecimento dos vascaínos.

   No dia de hoje, 06 de setembro de 2015, faz 117 anos que os fundadores definiram em reunião de diretoria o que a princípio seria o primeiro uniforme do Vasco. Por proposta do então presidente-fundador, Sr. Francisco Gonçalves Couto Junior, o Vasco teve aprovado por unanimidade as suas primeiras vestimentas. Assim nos diz a documentação histórica:

"Por proposta do snr. Presidente o uniforme que se deveria adoptar no Club de Ragatas Vasco da Gama foi um debate por unanimidade de votos approvado o seguinte uniforme:
Bonet de casimira preta com pompão branco e preto: Camiza preta com golla e larga faxa branca tendo no peito metade sobre o branco e metade sobre o preto a Cruz de Malta encarnada: Cinto branco; Calção de casimira preta; Meias pretas: Sapatos brancos, sendo o uso dos sapatos e meias somente obrigatorio por occasião de regatas" (Atas da Diretoria, 06 de setembro de 1898).

   Conforme podemos perceber, no primeiro modelo de uniforme a camisa possuía uma “larga faxa branca” (sic), que estava na posição horizontal. A faixa viria a mudar de posição apenas no ano seguinte, em decorrência da primeira grande cisão do clube, passando a ser “a tiracolo”, ou seja, em posição transversal. Vide: http://www.vasco.com.br/site/noticia/detalhe/11061/os-116-anos-da-criacao-do-principal-uniforme-do-vasco.

   É de se destacar a intenção primeira com o símbolo do clube, a cruz entre o preto da camisa e o branco da faixa, o que viria a ser eventualmente retificado, pois no mês de novembro de 1898, em ofício de filiação à União de Regatas Fluminense, a cruz encarnada foi designada em posição central na faixa.

   Na falta de fotografias de época, apresentamos abaixo duas imagens retocadas digitalmente que simulam os uniformes da fundação, com a cruz metade sobre o preto e metade sobre o branco; e com a cruz dentro da faixa larga:

                                                                                                                                                               

(1) Uniforme de 6 de setembro                                                  (2)Uniforme da filiação à União




Imutável o nome e as cores do Clube

   Em reunião da Assembleia Geral no dia 10 de setembro de 1898, o sócio-fundador José Lopes de Freitas colocou em votação e foi aprovado por unanimidade de votos a condição de imutabilidade do nome e das cores do Vasco: 

"Do mesmo Snr. Por unanimidade e com aplauso geral:
O Club de Regatas Vasco da Gama por motivo nenhum mudaria o Nome e as Côres que adoptar" (Ata da Assembleia Geral, 10 de setembro de 1898)


   Dias depois dessa reunião, a flâmula, que geralmente ficava na popa dos barcos, foi aprovada. Ela era assim constituída: 

[...] da flamula para uso das embarcações do Club que foi resolvida a seguinte; de seda preta com uma lista branca ao centro com uma cruz encarnada tendo a flamula 50x10 c/m de comprimento por unanimidade” (Atas da Diretoria, 23 de setembro de 1898).


   Dessa forma, os vascaínos pouco a pouco iam construindo o clube, moldando uma instituição que nasceu para o congraçamento entre portugueses e brasileiros.

*Texto e iconografia da equipe do Centro de Memória do Club de Regatas Vasco da Gama