terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O VASCO NA ILHA DO ENGENHO - 1912


Há exatos 101 anos, comemorava-se a grande conquista do campeonato de remo



En Avant, de Boffil, o troféu recebido pela guarnição da yole Meteoro vencedora do páreo que
 levou o Club de Regatas Vasco da Gama à conquista do Campeonato de Remo de 1912


   Após quase 10 anos, sob a presidência do velho rower Marcilio Telles, retornava o Vasco da Gama à ilha do Engenho em comemoração pela conquista do campeonato de remo de 1912. O motivo para a festa era mais que justificado. O club já era o maior do Brasil, tendo naquele ano conquistado 19 vitórias nas 4 regatas realizadas na temporada esportiva. Além disso, suas guarnições também levantaram o pavilhão cruz-maltino em 17 grandes provas de honra, glorificando para sempre na memória vascaína o nome do Vasco da Gama!


   O convescote foi adiado por duas vezes. A primeira data a 24 de novembro foi transferida em razão do mal tempo. O segundo, designado para 1.º de dezembo, não se realizou em decorrência do luto nacional pelo falecimento da esposa do presidente da república, Hermes da Fonseca. Finalmente, após elaborada organização, o pic-nic foi realizado em 7 de dezembro, domingo.



  Conforme previsto pela comissão organizadora, a barca "Martin Affonso" partiu às 9:30h para a ilha do Engenho com aproximadamente 500 pessoas, entre sócios, atletas, familiares, convidados da federação, dos demais clubes co-irmãos e da imprensa, que fizeram questão de noticiar a realização do evento.




   Da mesma forma que nos anteriores, a comissão organizadora fez-se questão de que todas as etapas fossem contempladas com atividades para entretenimento dos convidados, com a distribuição de brindes e prêmios,  além da participação da banda militar.




   Após o lunch, servido em extensas mesas, realizou-se diversas tarefas da tradicional gincana entre os participantes da festa, saindo vencedor de uma delas o futuro presidente Raul Campos, bem como o então menino José da Silva Rocha (Rochinha), outro futuro presidente e nosso afamado historiador vascaíno, autor da obra Vasco da Gama - Histórico: 1898-1923.




   Às 17 horas da tarde, os vitoriosos vascaínos do campeonato de remo de 1912, retornavam ao Cais Pharoux.

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Vascainidades:

(1) JORNAL DO BRASIL - sexta-feira, 22 de novembro de 1912

ROWING
CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA

  Conforme repetidamente temos annunciado, realiza-se domingo na ilha do Engenho, a festa com que um grupo de associados e directores commemorará as victorias alcançadas por este valoroso centro nautico na estação sportiva deste anno.
  Os socios e convidados do Club Vasco da Gama serão transportados para a ilha do Engenho na barca "Martin Affonso" que zarpará do Caes Pharoux ás 9 horas da manhã.
  O programma organizado foi feito cuidadosamente e promette-nos uma festa brilhante, cuja lembrança perdurará longo tempo nos circulos sportivos.
  Depois de amanhã, dia da festa, publicaremos, além do programma na integra, outras informações interessantes.


(2) JORNAL DO BRASIL - domingo, 24 de novembro de 1912

ROWING
CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA
A FESTA DE HOJE

   Realiza-se hoje o pic-nic que uma comissão de socios deste Club promove em commemoração ás victorias alcançadas durante este anno.  A julgar pela procura de convites, a festa promette ser muito concorrida, não sendo para estranhar que, entre os presentes se note além das commissões de representantes officaes, imprensa, federação e clubs congeneres, também grande numero de famílias e distintos rowingmen.
   A comissão promotora da festa poz o maior cuidado na distribuição dos convites, afim de evitar certos factos muito communs em taes ocasiões, e que sempre acarretam incidentes desagradáveis.
   É assim que constituída a commissão organizadora da festa de hoje na ilha do Engenho:
   Presidente, Marcílio Telles; Secretário, Annibal Peixoto, e Thesoureiro, Claudio Veiga, sendo ainda membros os Srs.: Alberto de Carvalho e Silva, Alfredo Rebello Nunes, Raul da Silva Campos, Affonso Lopes de Oliveira, Seraphim Ribeiro, Francisco Moreira, Antonio Duarte Silva, Antonio Costa e José Maria Pinto Soares.
   O programma a que anteriormente fizemos referência é este:
   1.º numero - Luta de pés, em circulo (na barca), para homens.
   2.º numero - Corridas de saccos (na ilha), para homens.
   3.º numero - Cuidado com casca de ovos (corrida), para senhoritas e senhoras.
   4.º numero - Luta de traccção para crianças.
   5.º numero - Corridas de uma perna para homens.
   6.º numero - Agulhas (destreza), para senhoras e senhoritas.
   7.º numero - Acertar no elephante, para crianças.
   8.º numero - Corridas de tres pernas, para homens.
   9.º numero - Copo d'agua (corrida), para senhoras e senhoritas.
   10.º numero - Apanha de nozes, para crianças.
   11.º numero - Descobril-o no elephante, para homens.
   12.º numero - Cartões postaes, para senhoras e senhoritas.
   13.º numero - Corridas de crianças (em casal).
   14.º numero - Nozes (apanha) para homens.
   15.º numero - Luta de tracção para senhoras e senhoritas.
   16.º numero - Corridas de obstaculos para homens.
   A barca Martin Affonso zarpará do cáes Pharoux, ás 9 horas a. m.
- o -
   A titulo interessante publicamos as seguintes linhas, que dizem com eloquencia dos remadores do Club Vasco da Gama:
   Nas regatas deste anno conqustaram 17 primeiros logares, e 2 segundos, das quaes 8 medalhas de ouro, 9 de prata e 2 de bronze.
   Distribuem-se assim as victorias conquistadas: regata de 7 de Julho, 2 primeiros logares; de 21 de Julho, 5 primeiros logares e 1 segundo; de 25 de Agosto, 5 primeiros logares; de 13 de Outubro, 5 primeiros e 1 segundo.
   Além desrtas victorias, que o Club directamente conquistou, desvemos salientar a bella corrida que fez a "yole" Greenhalgh, tripulada por uma guarnição deste Club e que levantou a grande prova "Campeonato do Brasil", conquistado assim pela F.B.S.R.
   É deveras lisongeiro o resultado obtido pelo homogeneo corpo de remadores do Vasco da Gama, que viu o seu pavilhão triumphar 19 vezes durante as quatro regatas realizadas na estação sportiva deste anno.
  Além de vencedor de 17 grandes provas de honra, o pavilhão alvinegro deste club conta as seguintes victorias de sabida importancia.:
   É vencedor das seguintes provas classicas: "Sul America", em 1904 e 1907, com as yoles Albatroz e Albyon; "Jardim Botanico", em 1904 e 1907, com a yole Albatroz; "Conselho Municipal", com a canôa Aguia, e "Dr. Julio Furtado", em 1912, com a yole Ibis; "Campeonato do Rio de Janeiro", em 1905-1906 e 1912, com as yoles Procellaria e Meteoro.
   A sua guarnição da yole Greenhalg venceu o "Campeonato Brasil", em 1912, representando a Federação Brasileira das Sociedades de Remo.
   É este club que promove a festa de hoje, na ilha do Engenho.


(3) JORNAL DO BRASIL -  segunda-feira, 25 de novembro de 1912

ROWING
C. DE R. VASCO DA GAMA

   Por motivo do máo tempo, não se realizou hontem a grande festa na ilha do Engenho.


(4) CORREIO DA MANHÃ - domingo, 1.º de dezembro de 1912

CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA

  Em virtude do fallecimento da Exma. Sra. do Sr. Presidente da República, fica transferida para 8 de dezembro p. f. a festa que devia realisar-se hoje na Ilha do Engenho

A Comissão


(5) O IMPARCIAL, segunda-feira, 9 de dezembro de 1912

ROWING
A GRANDE FESTA DO CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA

   Realizou-se hontem na aprazível ilha do Engenho o pic-nic proporcionado por esse symphatico club aos seus socios, como homengem ás innumeras victorias alcançadas por essa digna sociedade no corrente anno.
   Ás 9 ½ horas da manhã e ponto, partiu do cáes Pharoux a barca "Martin Affonso" conduzindo approximadamente umas 500 pessoas. A viagem foi feita na mais delirante alegria, durante a qual houve dansas ao som de harmoniosa banda de musica.
   Diversas commissões compareceram a esse festejo, conseguindo o nosso representante saber das dos Fenianos, Democraticos, Gragoatá, Boqueirão, Flamengo e a Federação B. das Sociedades do Remo, representada pelo digno presidente Faria Ramos.
   Ás 10 ½ horas atracava a "Martin Affonso" á pitoresca ilha, tendo sido o desembarque feito na maior ordem.
   Conduzindo os convidados para o palacete da sra. viuva Ramos, fizeram ahi um pequeno descanso.
   Em seguida, foi servido em tres extensas mesas, armadas debaixo de copadas mangueiras, farto e saboroso lunch, no meio da mais franca intimidade.
   1.ª prova - "Luta de pés", para homens - Vencedor, sr. Carlos Dias de Carvalho. Premio: guarnição de botões para collete.
   2.ª prova - "Corridas de saccos", para homens - Vencedor, sr. Benjamin Pereira da Cunha. Premio: uma navalha para barba.
   3.ªprova - "Cuidado com as cascas de ovos", para senhoritas. Vencedora, senhorita Florianina Oliveira. Premio: um relogio-pulseira.
   4.ª prova - "Lucta de tracção", para meninos - Vencedor, partido verde, composto dos seguintes meninos: José de Souza Vinagre, José e Alberto da Silva Rocha, João Baptista de Carvalho, Ernani Moreira Val, Mario Parreiras, Humberto Ragoni e Nelson Ramos: metralhadora a cada um.
   5.ª prova - "Corrida de uma perna", para homens - vencedor: o sr. José Pereira Portugal. Premio: um tinteiro de christofle.
   6.ª prova - "Agulhas", para senhoras - Vencedoras: senhoritas Isaura Santos e Adelina Villela. Premios: duas caixas de christofle para pó de arroz.
   7.ª prova - "Corrida de tres pernas", para homens - Vencedores: Raul Campos e Jorge Lopes. Premios: uma caixa de charutos de Havana.
   8.ª prova - "Corrida de obstaculos", para homens - Vencedor: o sr. Albano Pinto da Fonseca. Premio: uma rica estatueta de prata sobre pedestal de onix.
   Prevenidos os convidados da hora do regresso, foi por esse motivo interrompido o vasto programma, deixando-se de se realizar mais oito porvas. Comtudo, procedeu-se ainda a distribuição de innumeros mimos ás senhoritas presentes.
   Ás 5 horas em ponto, fez-se na mesma ordem o reembarque dos excursionistas, trazendo esses os corações cheios de saudades por se verem privados de tão venturoso e allegre momento.
   Durante a viagem, por delicada generosidade do sr. Claudino Veiga, thesoureiro da comissão de festejos, foi aos representantes dos jornaes offerecido o sorteio de uma bengala, "chic" e com castão de prata, e a sorte, como em tudo, deitou seus olhares magnanimos para o nosso collega Alfredo Foord, que de posse do premio lá se foi muito contente.
   Os srs. Marcilio Telles, Francisco Carvalho Silve, Annibal Peixoto e Alberto de Carvalho e Silva, presidente, director de regatas, representante da Federação e membro da commissão de festejos, resctivamente, foram de extrema bondade para com o nosso representante e ás 6 horas dava-se a festa concluida, atracando a barca ao cáes debaixo de salvas e estrepitosos vivas ao sympathico club.


*texto originalmente publicado em 07/12/2013 - 10h37m no semprevasco.com

O VASCO NA ILHA DO ENGENHO - 1903


Candinho e o primeiro registro fotográfico dos Camisas Negras




O retorno à ilha do Engenho

   O ano de 1902 foi particularmente difícil para o Vasco. Não que o club deixasse de crescer, aumentar sua flotilha, arregimentar novos e distintos sócios ou ainda de buscar a merecida glória, mas o fato marcante daquele ano foi o trágico naufrágio da baleeira Vascaína, ocorrido no mês de abril nas águas da baía de Guanabara, cujo mar tragou a vida de quatro de seus doze remadores - os primeiros mártires vascaínos! As festividades daquele ano ficaram restritas às instalações internas. Somente no ano seguinte foi retomado aquele que se tornou um dos maiores eventos sociais do club, o pic-nic na Ilha do Engenho.


Dois pic-nics em abril de 1903

   Segundo o semanário O Malho, publicado em fins de março de 1903, a realização do convescote (piquenique)* estava designado inicialmente para a Ilha do Fundão, que à época era apenas uma das oito pequenas ilhas que futuramente seriam aterradas e interligadas para a construção do atual campus universitário da UFRJ.  Entretanto, o evento social acabou por ser realizado a 5 de abril de 1903 na "pitoresca" ilha do Engenho.

   O pic-nic se deu conforme o esperado e mais, foi a oportunidade de se comemorar as últimas vitórias náuticas sob o comando daquele que viria a se tornar em 1904, o primeiro presidente de honra do clube, Alberto de Carvalho e Silva. Outro haveria de ser realizado no dia 26 de abril, com mais uma malta de sócios do Vasco!

Alberto de Carvalho e Silva
Presidente de 1902 a 1904 e de 1906 a 1907,
um dos notáveis administradores da época da consolidação.

   Esse segundo pic-nic foi devidamente registrado pela imprensa da época, e fez balizar no tempo dois fatos importantíssimos que viriam marcar de forma permanente a memória vascaína: o surgimento daquele que apontou o Vasco como um club verdadeiramente interracial, o futuro presidente Candido José de Araujo; e além disso, o primeiro registro fotográfico dos históricos Camisas Negras, antes mesmo da adoção do futebol.

   A imprensa de então noticiou as festividades e o resultado das competições que se desenvolveram na forma de gincana entre sócios. Como no anterior, o convescote também foi realizado num domingo. O Jornal do Brasil manifestou a simpatia e o sucesso do congraçamento entre vascaínos:

   "Referimo-nos na edição da tarde de hontem ao esplendido passeio maritimo, realizado domingo ultimo, por um alegre grupo de amadores do acreditado Club de Regatas Vasco da Gama.
 
   Noticiando essa intima e encantadora festa procuramos fazer sentidas a doce camaradagem e a esmerada organisação que foram as notas caracteristicas daquelle passeio á ilha do Engenho." (JB, 3 de maio de 1903)".


Candinho e o discurso profético


Candido José de Araujo
Presidente de 1904, 1905 e 1906.
O primeiro vascaíno de cor a presidir o C. R. Vasco da Gama

   Encarregado do pic-nic de 26 de abril de 1903, Candido José de Oliveira despontou como verdeiro e empolgado orador, indicando o obrigatório caminho da união entre os sócios que soergueram às alturas o nome do Club de Regatas Vasco da Gama:

   "... Acabados os exercícios fizeram presentes varias escursões pela ilha, seguindo-se profuso jantar; ao terminar usou da palavra o socio Candido de Araujo (Candinho) o qual concitou os Vascaínos a congregarem-se a fim de collocarem o Vasco da Gama no logar que lhe está destinado..." (Correio da Manhã - 29 de abril de 1903).

   Mulato e escriturário da Central do Brasil, haveria Candinho de se eleger presidente em agosto do ano seguinte, conduzindo e preparando o club para o seu primeiro campeonato em 1905, quebrando em vários sentidos o paradigma elitista dos clubes de regatas da então Federação Brazileira das Sociedades de Remo, o que tornou o Vasco da Gama um verdadeiro club interracial no ano de 1904!

Candinho junto à malta no pic-nic de 26 de abril de 1903


O primeiro registro foto-jornalístico dos Camisas Negras

   Ao contrário do que muitos imaginam, os Camisa Negras não surgiram no Vasco com a criação da seção de futebol em dezembro de 1915.

   Mario Filho, em sua romantização a respeito da fundação do Vasco, publicada na sua coluna "Primeira Fila" do semanário "O Globo Sportivo", esclarece que uma das opções para escolha do uniforme do club seria a camisa inteiramente negra. E de fato esse foi o uniforme escolhido, exceto por um evidente conflito: não era concebível o uso da Cruz de Cristo sobre campo negro, mas somente sobre campo branco.


A bandeira da Ordem Militar de Cristo com sua cruz sobre campo branco
(Preparativos para a festa de Ano Novo na Ilha da Madeira - 1936
 Funchal - Praça João Gonçalves Zarko - A cruz verde representa a Ordem de Avis
Acervo: Universidade de Dresden - Foto: Franz Grasser)


   A solução: uma faixa a tiracolo branca, abotoada no ombro das camisas negras para uso nas regatas oficiais, solenidades de gala e fotografias do quadro de honra!

  Portanto, o C. R. Vasco da Gama já nasceu com seu uniforme oficial negro com a faixa a tiracolo branca, encimada pela Cruz de Cristo encarnada no centro do peito, juntamente com a sua variação interna, a camisa negra.

  Fato é que, excetuado o privilégio do uso obrigatório da faixa a tiracolo, o Vasco da Gama sempre foi Camisa Negra nos torneios internos e demais competições esportivas oficiais anteriores ao futebol, apesar das versões em contrário, inclusive a abraçada oficialmente pelo club, sendo que o primeiro registro fotográfico dos Camisas Negras se deu exatamente no pic-nic na ilha do Engenho, a 26 de abril de 1903.



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Vascainidades:

1) CORREIO DA MANHÃ - segunda-feira, 10 de abril de 1903

CLUB VASCO DA GAMA

   Domingo passado, na pitoresca ilha do Engenho, realizou-se o convescote promovido sob os auspicios de um grupo de associados.
   Á 1 hora da tarde, nas lanchas Ordem e Marechal Bittencourt partiram os numerosos convidados para a bella festa.
   Apezar da forte ressaca, foi alegre a travessia, portando-se galhardamente os dois barcos, que ostentavam nos mastros a flamula do C. V. da Gama.
   Ás 2 horas da tarde, chegados á ilha do Engenho, foi o desembarque effetuado por meio de botes, visto não permitir o pouco fundo, que atracassem as duas embarcações.
   Depois de percorrerem a aprazivel ilha, subdivididos em varios grupos, reuniram-se todos para assistir aos exercicios do programma.
   Do primeiro pareo, corridas de saccos, foi vencedor, apos varios accidentes interessantes o sr. Abel Costa; do 2.º, agilidade, sahiu vencedora a senhorita Marieta Deconto; o sr. Famega venceu o 3.º pareo, corridas de saccos.
   O 4.º pareo, o mais original e interessante de todos, verdadeira prova de agilidade, agudeza de vista e paciencia teve vencedora mme. Freire, sahindo o sr. Guilherme de Azeredo vencedor do 5.ª pareo, agilidade.
   A senhorita Deconto sahiu ainda vencedora na prova Conquista do Polo, terminando o programma com o concurso de tiro ao alvo, vencido pelo sr. Abel Costa.
   Foi em seguida servida lauta mesa de finas iguarias, reinando durante a collação o tradicional enthusiasmo dos vascainos a cujo influxo não podiam escapar os seus convidados.
   Aos vencedores foram distribuidos premios.
   Ás 7 horas da noite separaram-se os socios e convidados do Vasco da Gama, saudosos das horas deliciosas que tão depressa passaram na ilha do Engenho.

2) CORREIO DA MANHÃ - quarta-feira, 29 de abril de 1903

CLUB VASCO DA GAMA

   Não se cansa esta sympathyca sociedade de realizar exercicios para mostrar os progressos feitos pelos seus membros, em varios generos de sport.
   Ainda domingo ultimo grande numero de amadores com suas familias e alguns convidados dirigiram-se, a bordo da lancha Santa Cruz, para a ilha do Engenho, onde no meio da animação geral, realizaram-se os seguintes pareos:
  1.º pareo - Agilidade, para rapazes, 1.ª turma: vencedores srs. Albano Fonseca, em primeiro logar, Herculano Coelho, em segundo;
   2.ª pareo - Agulhas, vencedores: madame Julio Costa, senhorita Gracinda Oliveira e sr. Alberto Duarte.
   3.º pareo - Agilidade, para meninos: em primeiro Arthur Bulhões, segundo Benjamin Correa.
   4.º pareo - Pedestres, sahiu vencedor: primeiro logar, Antonio Baptista e Albano Fonseca, segundo.
   5.º pareo - Conquista do polo, senhorita Maria Laforge.
   6.º pareo - Saccos: primeiro, Albano Fonseca, segundo Plinio Ribeiro.
   7.º pareo - Procura do elephante, sahiu vencedor João de Figueiredo.
   Acabados os exercicios fizeram os presentes varias excurções pela ilha, seguindo-se profuso jantar. ao terminar usou da palavra o socio Candido Araujo (Candinho) o qual concitou os Vascainos a congregarem-se a fim de collocar o Vasco da Gama no logar que lhe está destinado.
   Era noite fechada, quando a Santa Cruz, garbosamente illuminada a giorno, atracou no caes Pharoux, deixando em terra os socios da melhor sociedade nautica e os seus convidados, entre os quaes se contavam o srs. A. Gomes da Costa e familia, Marques de Oliveira e familia, viuva Laforge e filhos, e outros cujos nomes não nos ocorre.

3) Fotos de Alberto de Carvalho e Silva e Candido José de Araujo obtidas da obra de José da Silva Rocha - CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA - HISTÓRICO: 1898-1923 - Gráfica Olímpica Editora Rio - 1975 - p.33

4) O termo "Camisas Negras" surgiu em meados dos anos 30, quando os cronistas esportivos ligados ao futebol passaram a designar dessa forma o scratch vascaíno, o que perdurou até meados de 1943, com a adoção definitiva dos dois atuais uniformes com as cores invertidas e faixa a tiracolo.

*texto originalmente publicado em 02/12/2013 - 03h42m no semprevasco.com

A PRIMEIRA VEZ NA ILHA DO ENGENHO

Em agosto de 1901 dava-se início àquele que seria uma das maiores tradições vascaínas. O "pic-nic" na Ilha do Engenho!



   18 de agosto de 1901 - O Vasco acabava de atravessar a sua segunda crise social. Diversos sócios importantes, inclusive fundadores como José Lopes de Freitas, haviam desertado do club.  No entanto, a fibra vascaína já estava plantada e as primeiras vitórias náuticas de expressão viriam logo a seguir.

   Terminado o mandato de Leandro Martins surge um novo velho nome para soerguer o renovado Vasco.  Retornava ao club Francisco Gonçalves do Couto Junior, o primeiro presidente. Junto com ele, regressava ao berço a sua flotilha. Diversos barcos originários da fundação foram reintegrados. A Voluvel, embarcação detentora da primeira vitória em 1899, estava de volta!

   O Vasco cresce. No seu regresso, o português Couto Junior consegue unir o corpo de associados.  Introduziu iluminação à gás na sede vascaína da Travessa do Maia, defronte ao mar da praia do Boqueirão do Passeio e mais um prédio é alugado na mesma travessa para incremento da garagem. Uma... duas instalações não eram suficientes. A terceira ainda seria alugada na rua Luiz de Vasconcellos.

   Para comemorar o terceiro aniversário do Vasco, nada melhor do que reunir a nata de vascaínos num dos mais importantes eventos sociais da cidade, o pic-nic na Ilha do Engenho.  A ilha, que se localiza do lado oposto da Baía de Guanabara, no município de São Gonçalo, era de propriedade de Henrique Lage, sendo posteriormente repassada à administração do Corpo de Fuzileiros Navais, permanecendo sob a tutela da Marinha até hoje. Naquele tempo o acesso era livre. Era possível agendar inclusive a participação de bandas militares para integrar o evento.  Essa época já não existe mais.

   Para que fique registrado na memória vascaína, iremos rememorar numa série de artigos as diversas ocasiões em que os vascaínos se reuniram irmanados alegremente em prol de um objetivo só: o Club de Regatas Vasco da Gama!

   Como não poderia deixar de ser, o evento foi registrado pelas primitivas câmaras fotográficas do Jornal do Brasil, cuja iconografia conseguimos reproduzir do acervo de periódicos da Biblioteca Nacional, a quem agradecemos a cessão.


   As fotos fantásticas não nos deixam mentir, o Vasco nasceu para a glória! Nelas aparecem as guarnições uniformizadas que participara da "regata íntima"; o próprio presidente Couto Junior em meio à malta; e supreendentemente um remador, cuja aparência lembrava muito um dos maiores campeões do remo vascaíno: Joaquim Carneiro Dias, na guarnição da Venus.(3)  Algumas dessas imagens já ilustraram umas poucas publicações sobre a história do Vasco, agora disponibilizadas em melhor resolução e nitidez.

         foto de 1901               Carneiro Dias em 1913  

   Vamos a elas, conforme foram publicadas em 25 de agosto de 1901:

   "CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA. Festejando o terceiro anniversario de sua fundação, este club realizou no ultimo domingo uma bella festa na ilha do Engenho. Tres lanchas levaram os alegres rapazes e seus convidados, bem como uma banda de musica, áquella ilha onde o dia passou-se na maior alegria, sendo, á tarde, effectuada uma regata intima que correu animadissima. Aos vencedores foram distribuidas medalhas de prata e bronze. As gravuras que publicamos representam grupos de socios e convidados que tomaram parte da sympathica festa."


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Vascainidades:

(1) Dentre várias embarcações de Couto Junior que foram reconduzidas ao Vasco, constavam, além da Voluvel, a Venus, a Amphytrite e a Victoria.

(2) Sobre o batismo da canoa Violeta, clique para acessar nosso artigo: "A CANOA VIOLETA E A CRISE SOCIAL VASCAÍNA DE 1901 - A curiosa assembleia presidida pelo delegado"

(3) JORNAL DO BRASIL - TERÇA-FEIRA - 20 DE AGOSTO DE 1901


Rowing
CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA


   Commemorando a data do seu terceiro anniversario, realizou domingo, este Club uma bella festa, na ilha do Engenho.
   Ás 10 ½, largou do Caes Pharoux a lancha Marechal Bittencourt, conduzindo convidados, socios e comboiando as beleeiras e canôas que tomaram parte na regata íntima.
   Á 1 hora e 20 minutos, chegaram á ilha as lanchas Paraná, Ordem e Federal, as duas primeiras conduzindo socios e convidados e a terceira a banda de musica do 2.º batalhão da brigada policial.
   Ás 2 horas da tarde foi dado o signal para o primeiro pareo pela lancha Paraná, a cujo bordo se achavam os srs. Heitor Goffi e Miguel Braz.
   Juizes da sahida, os srs. Ferreira Filho, Frederico Sid e Jayme Mattos; juizes de raia.
   A bordo da lancha Ordem estavam os srs. Sylvestre Camara, Eugenio Reis, Thomaz Montmonrency, juizes de chegada.
   Foi este o resultado:
   Primeiro pareo - 1.000 metros. - Baleeiras a 4 remos. - Medalhas de prata ao primeiro e de bronze ao segundo vencedor.
   Em 1.º logar chegou Væ Victis, patronada pelo sr. Alvaro Barros e tripolada pelos srs. Francisco Lage, Joaquim Campos, Joaquim Cunha e Mario Telles.
   Em 2.º logar Amphitryte, patronada pelo sr. João Jorio e tripolada pelos srs. Bredo de Mello, Francisco Alberto, Manuel Costa e Manuel Marques.
   Em 3.º logar Valva, patronada pelo sr. Oscar Rocha e tripulada pelos srs. Antonio Seixas, Eduardo Soares, Valentim Machado e Raul Monteiro.
   2.º pareo - Canôa a 4 remos. - 1.000 metros. - Medalhas de prata ao primeiro e de bronze ao segundo.
Foi este o mais renhido dos pareos da regata.
   Alcançou o primeiro logar Violeta, patronada pelo sr. Manuel Soares e tripolada pelos srs. Antonio Moreira, Mario Telles, Antonio Taveira e Antonio Martins.
   Em 2.º logar chegou Vespa, patronada pelo sr. João Jorio e tripolada pelos srs. Bredo Mello, Francisco Alberto, Manuel Costa e Manuel Marques.
   Em 3.º logar chegou Venus, patronada pelo sr. José dos Reis e tripolada pelos srs. Lourenço Cordeiro, Joaquim Campos, Francisco Lage e Jayme Alves.
   3.º pareo - Baleeira a 6 remos - 1.000 metros. - Medalhas de prata ao primeiro e de bronze ao segundo.
   Em primeiro logar chegou Vanda, patronado pelo sr. Lourenço Cordeiro e tripolada pelos srs. Antonio Seixas, Eduardo Soares, Antonio Fonseca, Raul Martim, Joaquim Cunha e Antonio Contims.
   Em 2.º chegou Vindicta, patronada pelo sr. Aurelio Martim e tripolada pelos srs. Manuel Soares, João Campos, Valentim Machado, Albino Santos, Euclydes Costa e Francisco Teixeira.
   Em 3.º chegou Vingativa, patronada pelo sr. Arthur Loureiro e tripolada pelos srs. Luiz Carvalho, Carvalho da Silva, José Lage, José Campos, Domingos Ferreira e Francisco Carvalho.
   Ás 3 ½ horas da tarde, terminada a regata, seguiram as guarnições e convidados para o bello parque da ilha, onde o photographo tirou diversos grupos, sendo em seguida offerecido um lauto banquete, sendo ao champagne erguidos calorosos brindes á imprensa e ao sport nautico.
   Ás 6 horas estavam de volta as lanchas, tendo corrido o divertimento de modo a honrar o Club de Regatas Vasco da Gama.

(4) O PAIZ - SEGUNDA-FEIRA, 4 DE MARÇO DE 1901

OS HERÓES DO MAR

   Dois moços associados ao Club de Regatas Vasco da Gama, passeavam hontem pela bahia, quando, de volta de Botafogo, a baleeira Venus, que tripulavam, virou a um movimento feito a bordo, caindo n'agua dois tripulantes.
   Longo tempo empregaram elles para restabelecer a posição do Barco, e luctaram tanto que um delles já se sentia sem forças, ao mesmo tempo que outro começava a perder as esperanças de subir na embarcação, que não supportava o menor peso.
   O facto passou-se ás 5 horas da tarde, na praia do Russell, em frente a um aterro que ali se fez ultimamente, e desse local viram os transeuntes, os moços lutando com o mar, e ouviram gritos de socorro. Nesta ocasião, da casa da viuva Russell, partiu um empregado em direcção ao Club do Flamengo, onde rapidamente contou o ocorrido.
   Promptamente a distincta associação de moços, que tantos beneficios tem feito, destacam um de seus sócios nadadores, o Sr. Vieira de Castro, que partiu a toda pressa para o local e fez seguir, ao mesmo tempo, o barco Tupan remado pelo vigoroso, rowing, Sr. Antonio Souza Costa, auxiliado pelos Srs. Abelardo J. da Silva e Pedro Telles.
   Quando, impellido velozmente pelo pulso do valente remador, chegou o Tupan, que fizera em menos de dez minutos todo o percurso do Flamengo ao Russell, já ali se achava o outro moço que partira a pé, Sr. Vieira Castro, o qual, vendo o perigo que corriam os tripulantes da Venus, se atirou na água, e, com auxílio de uma corda, que passou a embarcação, tendo a extremidade nos dentes, começou, nadando, a rebocar o barco submerso, a cujo casco se pegavam, quasi examines, os socios do Club Vasco da Gama.
   Apezar dos inauditos esforços que empregava o valente nadador, era o seu trabalho pouco efficaz, se bem que o basco se movesse em direção á terra, mas lentamente.
   Já todos que assistiam a esta scena de valentia, começavam a temer pela do sorte dos naufragos e seu salvador.
   Foi nesse momento que chegou o barco remado pelo Sr. Souza Costa, que passou para bordo os dois moços, um dos quaes começava a desfallecer;
   Salvoz e sãos, foram os tripulantes da Venus desembarcados na praia do Russell, de onde seguiram para a casa de pensão que ali ha e onde lhes foram dados reactivos e outros soccorros que careciam.
   Quando melhores do susto e salvos do perigo que correram, os socios do Club Vasco da Gama tiveram verdadeiras e emocionantes phrases de gratidão e reconhecimento para com seus valentes collegas que lhes salvaram a vida.
   A scena dos abraços, após o perigo, foi muito tocante e enterneceu a todos que a assistiram.
   Não podemos fechar esta noticia sem registrar os francos, applausos e manifestar nossa admiração por esses dignos moços, que de todas as maneiras e todos os dias attestam o seu valor e a abnegação que anima pela vida dos seus semenlhantes."


* texto entre aspas na grafia original da época
**texto originalmente publicado em 20/10/2013 - 01h19m no semprevasco.com

A BANDEIRA PERDIDA DO VASCO


Na "Era de Ouro" do remo, a bandeira náutica era mantida exposta na sede da Rua Santa Luzia

 



   As primeiras décadas do século XX foram a "Era de Ouro" do remo na então Capital Federal. Das águas das praias de Santa Luzia e Boqueirão do Passeio, bem como das competições oficiais na Enseada de Botafogo, o Vasco da Gama despontou como o club mais poderoso do "Sport Nautico".

   Na sede histórica da Rua Santa Luzia, o Vasco mantinha exposta em um painel a bandeira que continha os símbolos náuticos do código de regatas: a "Âncora", a "Bóia Salva-Vidas", o "Croque", e o "Remo", encimados pela Cruz da Ordem de Cristo e as iniciais "VG".

   A partir do registro iconográfico, foi possível o resgate da memória vascaína. Num livre exercício de recriação, apresentamos acima como seria a bandeira perdida do Vasco.

   Ao lado dela estiveram os ex-presidentes Marcilio Telles e Raul Campos.






Marcilio Telles (de branco) em fevereiro de 1916 junto à bandeira náutica




 




 Raul Campos (primeiro à direita), à porta da sede com a bandeira náutica ao fundo








*texto originalmente publicado em 13/10/2013 - 18h33m no semprevasco.com

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A PRIMEIRA SEDE DO VASCO - RUA DA SAÚDE, N.º 127

Em frente da sua primeira sede, também funcionou a primeira escolinha de remo do Vasco!

 


    Há muito se pergunta: aonde se localizava com exatidão a primeira sede do Vasco, instalada no Largo da Imperatriz.  Aqui tentaremos resgatar para a memória vascaína a pequena história por trás da história. 


Os Primeiros Passos do Vasco para a Glória

   Henrique, Luiz, José e Manoel. Todos do comércio do centro do Rio, trabalhavam mais de 14 horas por dia. Em fins do século XIX o comércio do Distrito Federal funcionava até as 21 horas ou mais, havendo inclusive plantões aos domingos para os funcionários que não folgassem. Caso folgassem, ainda assim teriam somente o tempo da manhã de domingo, antes do almoço de preleção dos empregados com o patrão. Neste dia lhes era possível exercitarem-se com um barco a remo, a Iracema, alugado ao Grupo de Regatas Gragoatá, na distante Niterói.  Das dificuldades da lida desportiva, em meio a remadas na baía de Guanabara, é que surgiu o sonho da criação de um clube de regatas na Saúde.

   Decerto a motivação dos fundadores era a prática do remo. No entanto, o chamado "rowing" ou "yatching" era dominantemente praticado pelos clubs de elite e por estrangeiros, que não permitiriam que simples comerciários "sem berço" lhes roubassem a cena.

   A decisão do fundador Henrique M. Ferreira Monteiro de convidar os irmãos Couto(1) a fim de que participassem do novo club de regatas não foi sem finalidade. Trariam eles o suporte social e financeiro para a viabilização do Vasco.


 Anúncio da empresa de Couto Junior publicado em diversos jornais da época


   O empresário Francisco Gonçalves do Couto Junior, em sociedade com o Conde de Santa Marinha, atuavam no ramo da "serraria a vapor" (com instalações na Rua Barão de São Félix, n.º 25 e nos trapiches de  n.os 106 e 112 da Rua da Saúde)(2).

   Ao contrário do que se diz e supõe, Couto Junior não era brasileiro e sim português. Nessa época, por conta também do anti-lusitanismo, advindo do jacobinismo praticado desde os tempos do império, fizeram com que os irmãos Couto ficassem motivados pela empreitada de um novo club de regatas, sob o signo da Cruz de Cristo.

   Antes mesmo de tomar posse como primeiro presidente do Club de Regatas Vasco da Gama, Francisco Gonçalves do Couto Junior providenciou, nas proximidades de seu negócio, a locação do prédio onde se instalaria a primeira sede do club, à rua da Saúde, n.º 127, defronte ao Largo da Imperatriz, vindo a funcionar na mesma data em que tomou posse a primeira diretoria, à 28 de agosto de 1898(3).


Gazeta de Notícias, 30/08/1898


   Nesse local ficaria o Vasco instalado provisoriamente, até que fosse decidida a localização de sua futura sede própria, onde passaria a funcionar a garagem de barcos.

 
A Cidade do Rio, 30/08/1898


   A sede da rua da Saúde, n.º 127 no Largo da Imperatriz(4), além estar a metros de distância dos negócios de Couto Junior, ficava bem próxima do acesso ao mar pelo Cais da Imperatriz, recentemente redescoberto pelas obras do Porto Maravilha e tornado monumento histórico pela prefeitura.




   A localização desta sede era mais que apropriada para o momento da fundação. Iniciava-se ali a sina de um club que lutaria anos a fio na superação da intolerância e do preconceito incrustados na cultura aristocrática e elitista da alta sociedade carioca da então Capital Federal.

   Nas palavras do Rochinha(5), "nesse sobrado espaçoso e confortável organizou o Vasco os seus serviços de secretaria, tesouraria e outros mais necessários à vida desportiva e social, pois era comum haver um bate-papo noturno". E ali os mais de 100 novos sócios, na sua maioria moradores da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, fizeram germinar os mais altos princípios de vascainidade: dignidade, força, coragem, e superação. 


O Primeiro Estatuto

   Ainda na sessão de posse da 1.ª diretoria eleita, ocorrida na Estudantina Arcas, o Dr. Henrique Lagden (2.º tesoureiro, médico e intendente da Câmara Municipal)(6), propôs a criação de uma comissão para a confecção do estatuto e do regimento interno, sendo eleitos para tal o fundador José Lopes de Freitas (Zé da Praia), e os sócios Virgilio Antunes e A. Gama.

   Encerrados os trabalhos da comissão, a 7 de setembro de 1898, convidou-se os associados a reunirem-se em assembleia geral para a discussão dos estatutos, designada para o sábado, 10 de setembro, às 7 horas da noite, conforme edital publicado no mesmo dia pelo matutino "O Paiz."





   Foi José Lopes de Freitas o formulador da principal proposta, que integra até hoje, de modo irreversível, todas as alterações estatutárias do Vasco: 

"PROPOSTA: O CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA POR MOTIVO
NENHUM MUDARÁ O NOME E AS CORES QUE ADOTOU".(5) 

O mesmo "O Paiz" afirma que aprovação do estatuto se deu sob aclamação de "um aluvião de palmas".

   Na mesma reunião, após a aprovação do estatuto, foram abertos os debates em assuntos gerais para definição da localização da futura garagem de barcos. Os irmãos Couto assumem o compromisso da construção do barracão para guarda das embarcações e seus utensílios. Discutido o local onde ela deveria ser erguida, por unanimidade de votos decidiu a assembleia pela Praia Formosa, na antiga Ilha das Moças. 


A Primeira Escolinha de Remo


No acesso ao Cais da Imperatriz foi criada a primeira escolinha de remo do Vasco


   Em frente à primeira sede, organizou-se também a primeira escolinha de remo do Vasco, sob direção dos dois Freitas (José Lopes de Freitas, expert do rowing, e João Candido de Freitas, diretor de regatas).

   Em sua obra(5), Rochinha descreve a atividade:

   "Todas as noites, das 19 às 22 horas, davam "aulas práticas no "Vagaroso", bote alugado e armado a quatro remos com palamenta, e na "Iara", cedido por João Amaral, barquito de quatro metros de comprimento, armado com quatro remos de voga com pretensões a baleeira.

   A garagem era um limitado trecho de praia ao lado do cais (da Imperatriz) de desembarque, uma corrente de ferro a prender os barcos com cadeado para evitar que as marés cheias e também as mãos sorrateiras e criminosas que os pretendessem levar para outros embarcadouros.

   Aos treinos noturnos, compareciam muitos sócios. Em regra os aspirantes e "campeões de remo" eram verdadeiros neófitos mas atentos e animosos ouviam com paciência e empenho as explicações sobre o material desportivo e a técnica: as forquetas, o castelo, o cair à ré, o remar avante, o bombordo, o boreste...".

   Já o jornal O Paiz ainda descreveu mais detalhes:

   "O numero de socios começou então a augmentar consideravelmente. Lopes de Freitas foi nomeado pela directoria instructor de remo; as instrucções eram ministradas todas as noites numa embarcação a quatro remos, a que lhes deram o nome de "Escola". 

   O trajecto preferido pelo habil instructor era da ilha da Pombeba ao Arsenal de Marinha, sendo este feito duas, tres e muitas vezes quatro por dia, era o adestramento dos futuros luctadores"(7).




O Prédio da Primeira Sede do Vasco

   Como afirmaram diversos jornais da época, a sede tinha por finalidade a provisoriedade. Os jornais "Cidade do Rio" e a "Gazeta de Notícias" destacaram a instalação do Vasco em sua sede provisória nas respectivas edições de 30/08/1898.

   Mesmo assim, foi ali que o Vasco traçou seu futuro, sendo visitado por seus co-imãos (Botafogo, Natação e Regatas, Flamengo e Boqueirão do Passeio) a 4 de setembro de 1898 (domingo), cujas guarnições, devidamente uniformizadas, realizaram a principal saudação náutica, encimando os remos ao alto, antes de desembarcarem no Cais da Imperatriz (O Paiz, quarta-feira - 07/09/1898) e se dirigirem à sede do club, lugar em que se confraternizaram, sob os auspícios de seu presidente, quando foi servido um lunch e brindes de vinho do porto.


O Paiz, quarta-feira - 7 de setembro de 1898


   Nela, providenciou a diretoria a aquisição de diversas embarcações, como a Zóca, que trouxe em solenidade a bandeira, a flâmula, o gorro, seu símbolo máximo, representado pelo escudo da Cruz de Cristo, designado desde então por toda imprensa genericamente como Cruz de Malta.

   Por volta do mês de novembro do ano da fundação, o Vasco já se encontrava instalado em sua sede própria na Ilha das Moças.

   Não se tem notícias se o club continuou utilizando o sobrado da Rua da Saúde, n.º 127 tão somente até a construção da nova garagem na Ilha das Moças ou se prosseguiu com a locação até o momento da primeira cisão em meados de 1899.

   Do histórico prédio da primeira sede do Vasco, que hoje corresponde ao n.º 167 da Rua Sacadura Cabral, somente persiste de pé a sua fachada, esta em péssimo estado de conservação.

Em destaque, à esquerda, o prédio da Rua da Saúde, n.º127 - atual Rua Sacadura Cabral. n.º 167.
Somente a fachada do predio permanece de pé

....
Notas do Blog:
(1) Eram 5 os irmãos Couto: Francisco Gonçalves do Couto Junior, Antonio Gonçalves do Couto Sobrinho, Adolpho Gonçalves do Couto, Alfredo Gonçalves do Couto e José Gonçalves do Couto, filhos de Francisco Gonçalves do Couto que em 1891 já era dono de um comércio de secos e molhados na Rua Voluntários da Pátria, n.º 72 (nas proximidades do atual n.º 46 e do acesso da estação Botafogo do Metrô).

(2) Os trapiches de Couto Junior localizavam-se onde hoje existe o complexo do Hospital dos Servidores Públicos do Estado, aproximadamente defronte aos ns. 203 e 205 da Rua Sacadura Cabral.

(4) Atual Praça Jornal do Comércio, no cruzamento da Rua Sacadura Cabral com a Av. Barão de Tefé, ao lado do complexo do Hospital dos Servidores do Estado.

(5) José da Silva Rocha, Club de Regatas Vasco da Gama - Histórico: 1898-1923, ed. gráfica Olímpica Editora-Rio - 1975, pp.16 e 17.  *Rochinha indica que a visita dos clubes náuticos à nova sede se deu no dia 10 de setembro. No entanto a fonte remota registrada pela edição de 7 de setembro de 1898 do jornal "O Paiz" (p. 3) retifica essa data para domingo, 4 de setembro de 1898.

(6) Dr. Henrique Lagden, médico atuante nos bairros portuários. Foi convidado por Henrique Monteiro a participar da fundação do Vasco, oportunidade em que lhe foi pedida a indicação dos seus pacientes para virem se associar ao club na assembleia de instalação. Foi um dos principais captadores de sócios, resultando, já na posse da 1.ª diretoria, no comparecimento de mais de 100 novos associados.

(7) Grafia original, Vide a matéria fixa do SempreVasco: Especial em comemoração ao vigésimo aniversário do Gigante da Colina

(8) Em nossas pesquisas cotejamos as seguintes fontes de consulta: (a) Biblioteca Nacional; (b) Plan of the City of Rio de Janeiro - Edward Gotto -1876; (c) Nova Numeração dos Prédios da Cidade do Rio de Janeiro - J. C. Cavalcanti - vol. 1 - fac simile da ed. original revisada de 1878, Câmara Municipal - Typographia da Gazeta de Notícias - Coleção Memória do Rio 6 - 1979; e (d) croqui do acervo de plantas e iconografia do Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro.  *O conjunto de 4 sobrados da Rua Sacadura Cabral (antiga da Saúde), em frente à Praça Jornal do Comércio (originalmente Largo da Imperatriz, antiga Praça Municipal), tinha numeração sobreposta por letras pela ordem A, B, C e D da antiga Praça Municipal, assim registrados por Edward Gotto. Na obra de J. C. Cavalcanti, encarregado da revisão, este procedeu a supressão da designação por letras para a Praça Municipal e integrou os imóveis à Rua da Saúde, indicando para o sobrado de letra C o n.º 127.  Já o croqui constante do acervo do Arquivo Público indica a posição dos 4 sobrados por volta de 1904, com os mesmos prédios ainda hoje existentes e mais 1 imóvel na esquina da Rua Camerino, na seguinte ordem: n.º 2 (da Rua Camerino, esquina com Rua da Saúde), n.os 123, 125, 127, 129.  Da simples comparação do imóvel indicado no referido croqui, temos a identificação do prédio da Rua da Saúde, n.º 127 como sendo o atual imóvel da Rua Sacadura Cabral, n.º 167 - Saúde.

*texto originalmente publicado em 30/09/2013 - 15h15m no semprevasco.com
** Nossos agradecimentos a André Decourt, autor do fotolog "Foi um Rio que Passou", de onde obtivemos a primeira foto que estampa este artigo (http://www.rioquepassou.com.br/2006/06/09/chafariz-da-gamboa)

domingo, 5 de janeiro de 2014

RUA DA SAÚDE, N.º 293 - O VASCO NASCEU PARA O MAR

Neste prédio os fundadores promoveram o nascimento do Gigante!

 

Em primeiro plano o Cais do Valonguinho. Em segundo plano, ao centro, o sobrado da Rua da Saúde, n.º 293

   Há algum tempo a NetVasco teve oportunidade de corrigir uma informação equivocada fornecida por um colunista social, acerca do local de fundação do Vasco.

  Naquela curta observação, a NetVasco atentou para o fato verdadeiro descrito na Ata da Assembleia de Instalação do Vasco (seu "registro de nascimento"), onde consta que os consócios fundadores, reunidos das 14:00h às 15:45h do dia 21 de agosto de 1898, fundaram o club no salão do prédio da Rua da Saúde, n.º 293.

   Indo mais além, afirmou também que aquele local não era a sede da Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, contrariando aquilo que é pregado pela tradição vascaína.

   De fato, há várias indagações e dúvidas a respeito do tema, transcendendo inclusive o que é historicamente propalado oficialmente tanto pelo club, como pela própria imprensa, esta muitas vezes de forma distorcida e equivocada.

   Já não é de hoje esse debate entre os vascaínos conhecedores da história do clube, cuja dúvida é alimentada pelo passar do tempo, elemento corrosivo da tradição oral, que favorece o dito pelo não dito, por vezes até com razão. Mas ainda assim permanece a pergunta:

Afinal de contas, naquele tempo o prédio da rua da Saúde, n.º 293 era ou não era sede dos Filhos de Talma?

   A dinâmica histórica do fato em si tem um conteúdo movediço, onde os elementos objetivo e subjetivo permeiam a interpretação valorativa. Vamos procurar responder de forma honesta a esta questão, além de outra não menos importante, cuja memória também se perdeu no tempo: "Onde era situado o prédio da rua da Saúde, n.º 293"?



As reuniões preliminares para fundação do Vasco

   Por iniciativa dos jovens comerciários, pioneiros entusiastas do rower, Henrique Ferreira Monteiro, Luiz Antonio Rodrigues, José Alexandre d'Avellar Rodrigues, Manoel Teixeira de Sousa Junior e posteriormente de José Lopes de Freitas (cognominado Zé da Praia), foram realizadas reuniões para a fundação de um clube de regatas, esporte que em fins do século XIX já despertava a paixão do público carioca nas lides realizadas na enseada de Botafogo.

   Tais reuniões, realizadas a partir de janeiro do ano da fundação, ocorreram primeiramente no sobrado que servia de moradia a Henrique Ferreira Monteiro, na rua Theóphilo Ottoni*, n.º 80 (ao lado esquerdo do atual n.º 90), aglutinado que era ao de n.º 78, onde era empregado da firma Agostinho Lisboa & Cia. Em seguida, para melhor acomodação, foram os jovens pioneiros acolhidos no salão da própria Sociedade Dramática Particular Filhos de Thalma.*

   Com a crescente e entusiástica adesão, ficou decidido que a fundação, instalação, eleição dos representantes e da 1.ª diretoria do club ocorreriam domingo, dia 21 de agosto de 1898, no salão dos Filhos de Talma; e a solenidade de posse da 1.ª diretoria eleita se daria na semana seguinte, nos salões da Estudantina Arcas.

   A Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma sempre esteve, desde sua fundação em 1879, sediada na rua do Propósito, no bairro da Saúde.  Primeiramente no prédio de n.º 30, e a partir do último decênio do séc. XIX, no sobrado de n.º 12 (atual n.º 20 - cf. revisão de numeração realizada pela Prefeitura do Distrito Federal em 1908).

 Sede da S.D.P. Filhos de Talma na rua do Propósito, n.º 20 (agosto de 2011)

   Já com relação ao local da posse, inexistem dúvidas. Realizou-se na Sociedade Dançante Estudantina Arcas, no seu salão à Rua São Pedro, n.º 152 - defronte à então Praça General Osório (antigo Largo do Capim), correspondente hoje à calçada do quarteirão da Av. Presidente Vargas, n.º 642 - entre as ruas Uruguaiana e dos Andradas - a cuja assembléia compareceram cerca de 100 novos vascaínos. Designada para o meio dia do 28 de agosto de 1898, tomava posse a 1.ª diretoria eleita do Vasco, conforme edital de convocação mandado publicar no sábado - dia 27, bem como no próprio domingo, 28 - dia da posse, no jornal Gazeta de Notícias.


   O fundador José Lopes de Freitas (José da Praia) cita a existência de um outro local para a posse da 1.ª diretoria, a Sociedade Arcádia Dramática Esther de Carvalho, cujo nome foi emprestado de uma importante atriz lírica da época. No entanto o endereço desta sociedade nada mais é que o da própria Estudantina Arcas, como pudemos constatar do cruzamento dos anúncios publicados no jornal Gazeta de Notícias (p. 2 - 30/06/1897) e no catálogo Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (p. 1397 - Ano 1895).


O Vasco foi ou não fundado no salão dos Filhos de Talma?

   Tal fato foi motivo de nossa indagação quando tivemos oportunidade de visitar os amigos daquela agremiação em agosto de 2011. E a resposta dos integrantes daquela sociedade progenitora foi: a S.D.P. Filhos de Talma nunca teve sede ou mesmo utilizou naquele tempo o prédio da Rua da Saúde, n.º 293.  Da mesma forma, não tinham ideia do porque a assembleia de instalação do Vasco não se deu em seu salão naquela tarde de domingo, permanecendo assim o mistério.

   Prevalece no entanto a versão oficial divulgada pelos fundadores desde a fundação: de que o Vasco foi sim fundado nos salões dos Filhos de Talma, em que pese a ata de instalação ser absolutamente contudente ao registrar endereço diverso daquele da sociedade dramática, cuja sede acolheu os fundadores nas reuniões preliminares quando o sobrado da rua Teophilo Otoni já não suportava mais a grande frequência.

   Sobre o assunto, o grande historiador vascaíno e ex-presidente José da Silva Rocha, sabedor da querela, deixou implicitamente ao sabor do leitor de sua indispensável obra, a interpretação subjetiva do fato (Club de Regatas Vasco da Gama - Histórico: 1898 - 1923, Gráfica Olímpica Editora-Rio - 1975 - p. 14).

   A questão portanto é contraditória, uma vez que a S.D.P. Filhos de Talma, desde quando ali se instalou na rua do Propósito, n.º 20 (antigo n.º 12), nunca ocupou qualquer outro imóvel. Ainda assim os vascaínos históricos veneravam a ligação com aquela sociedade, a ponto de realizarem celebrações conjuntas.

   Interessante observar que naquele tempo a S.D.P. Filhos de Talma era uma importante e afamada sociedade formadora de artistas amadores.  Celebrar qualquer evento de caráter associativo em seus salões, trazia maior dignidade. Para corroborar, a Gazeta de Notícias noticiava em 16 de setembro de 1900 que outro clube de regatas foi efetivamente fundado ali no salão daquela sociedade dramática: o Internacional de Regatas, cuja sede social foi arrematada em uma execução trabalhista há pouco mais de 1 ano, inviabilizando-lhe o funcionamento. Curiosamente foi para este clube que os sócios retirantes da cisão de 1901 se associaram.

 Praça da Harmonia por volta de 1905, em destaque o sobrado da rua da Saúde, n.º 293 (o primeiro à direita da foto)

   Uma outra fonte apócrifa chega a afirmar, sem qualquer comprovação, que a primeira intenção dos pioneiros para o local de fundação do Vasco era inversa, ou seja, que a instalação teria sido programada para o salão da Estudantina Arcas. Porém, para surpresa de todos, o clube dançante encontrava-se fechado naquele domingo. Na esperança de uma solução imediata, teriam os fundadores se encaminhado até os Filhos de Talma, uma vez que já haviam realizado as primeiras reuniões naquele local, mas também o seu salão não estava disponível. Possivelmente tal impedimento se deu por conta do tardar da hora, uma vez que as apresentações artísticas sempre eram designadas para os sábados e domingos, por volta das 15:30h. Não se sabe ao certo.

   Por fim, sabemos que no salão dos Filhos de Talma não se realizou efetivamente a assembleia de fundação do Vasco. Os incansáveis fundadores dobraram a esquina da rua do Propósito e celebraram a assembleia ali bem perto, na Rua da Saúde n.º 293. O que importava para a alma dos antigos vascaínos era a intenção, a homenagem, a pompa e a circunstância requerida. Tudo em prol da elevação do ser criado e mitificado! O glorioso Club de Regatas Vasco da Gama fundado nos Filhos de Talma!

   Foi a partir desse culto que o Conselho Deliberativo do Club de Regatas Vasco da Gama reuniu-se no dia 21 de agosto de 1958, em sessão solene realizada no salão da S.D.P. Filhos de Talma, para comemorar o seu 60.º aniversário, registrando definitivamente na memória vascaína o ato de sua fundação perante a digna e honrada sociedade dramática, através da famosa placa de bronze ofertada pelo Vasco e que estampa até hoje as paredes de sua sede, "relembrando" assim a umbilical ligação havida entre vascaínos e talmasinos.



O Prédio da Rua da Saúde, n.º 293, atual Rua Sacadura Cabral, n.º 345

   Anteriormente, tivemos oportunidade de afirmar que o Vasco havia nascido para o mar, e de fato, naquele momento de nossas buscas e pesquisas, não nos era possível precisar o exato ponto, defronte à tradicional Praça da Harmonia, em que teria ocorrido a fundação do club.

   O referido endereço havia se perdido na memória dos vascaínos. O único documento oficial que o Vasco possui acerca do local é a própria Ata de Instalação do Club. O decorrer do tempo, a perda da tradição oral, e a repetição do fato pela imprensa sem a devida revisão, fizeram com que o esquecimento tornasse duvidosa a devida localização por si só.

   Como a lembrança não sobreviveu, pudemos identificar em nossas buscas nos diversos registros histórios disponíveis, o negócio que se operava no local 1 (um) ano antes do nascimento do Vasco.  Ali estavam instalados os sócios "Manoel Pires Coelho e Antonio Martins Pinheiro, para o commercio de café moido, nesta praça, á rua da Saude n. 293, com o capital de 8:000$, sob a firma de Pires & Pinheiro"*, conforme registro dos arquivamentos realizados entre 22 de março a 1.º de abril na Junta Comercial (Diário Oficial, 11/08/1897, p.1680).  Nenhum deles, ao que se saiba, tiveram qualquer participação na histórica fundação do clube; assim como o então proprietário do imóvel: Manoel Ernestino da Costa, exceto, talvez, pelo curto empréstimo do salão térreo onde transcorreu a instalação do C. R. Vasco da Gama.

   Em 1907 a Prefeitura do Distrito Federal baixou o Decreto n.º 664, determinando a revisão da numeração das ruas do centro da cidade.  Foi o período do "Bota Abaixo"; da inauguração da Avenida Central; da Revolta da Vacina, cujo lider foi Prata Preta; e do início da construção do Cais do Porto a partir de 1906.  A numeração de todo casario do centro da cidade foi alterada.  Ao se pagar o imposto predial, pagava-se também pela nova placa. Em 1909 o prédio já ostentava a sua numeração atual de n.º 345.

   Finalmente, a 24 de junho de 1922, a Prefeitura do Distrito Federal alterou por decreto o nome da Rua da Saúde para Rua Sacadura Cabral.

1) O sobrado da Rua da Saude, n.º 293 em 1908, visto da Praça da Harmonia.
2) O mesmo sobrado em 1905, visto do mar, próximo ao Cais do Valonguinho.
3) Hoje,  na cor amarela, o mesmo sobrado da Rua Sacadura Cabral, n.º 345.

*texto com a grafia da época.
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Agradecimentos:

José Luiz Mano, Grande-Benemérito do C.R. Vasco da Gama, que propiciou nosso encontro com os amigos dos Filhos de Talma em agosto de 2011.

Daniel Ferreira, do SempreVasco, grande vascaíno e entusiasta da história do Vasco.

Fernando Matta, da Netvasco, também grande vascaíno entusiasta da história do Vasco.

Walmer Peres Santana - Historiador do Centro de Memória do C.R. Vasco da Gama

Sr. Rosauro, do 1.º Serviço Registral de Imóveis, que muito gentilmente nos ajudou na compreensão e localização dos antigos registros imobiliários.

Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro, que gentilmente nos cedeu, para este artigo, o direito de uso da imagem do histórico sobrado, cuja autoria é de Augusto Malta.

Sra. Glaucia Santos Garcia, pesquisadora e promotora da Comunidade Viva Gamboa no Facebook.

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Fontes de consulta:
- Club de Regatas Vasco da Gama - Histórico: 1898-1923 - José da Silva Rocha - Gráfica Olímpica Editora-Rio (1975)
- Biblioteca Nacional - Periódicos
- Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro (Biblioteca, Acervo de Plantas, Croquis e Iconografia)
- Plan of the City of Rio de Janeiro - Edward Gotto -1876
- Nova Numeração dos Prédios da Cidade do Rio de Janeiro - J. C. Cavalcanti - 1 - fac simile - Coleção Memória do Rio 6 (1979)
- O Álbum da Avenida Central - Marc Ferrez - Ed. Ex Libris (1983)
- Portal GeoRio da Prefeitura do Rio de Janeiro - Mapa Digital do Rio de Janeiro
- Um porto para o Rio -  Imagens e memórias de um álbum centenário. Maria Ignez Turazzi (org.). Casa da Palavra, 2012

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Vascainidades

(1) José Lopes de Freitas, conhecido como Zé da Praia, era ao seu tempo um desportista nato. Além do remo, cuja prática havia adquirido pelo Club "Natação e Regatas", também era sócio e professor de ginástica do "Club Gymnastico Portuguez", conforme grafia da época.  A 18 de maio de 1898, o Ginástico Português promoveu um festival de ginástica em comemoração ao quartocentenário da Descoberta dos Caminhos das Índias por Vasco da Gama, sob o comando de Lopes de Freitas. Neste festival, Freitas granjeou entre os associados e alunos a idéia do novo club que se fundaria sob o signo da Cruz de Cristo, cujo nome à aquela altura já estava decidido. Havia de fundar-se, custe o que custar!

(2) A NetVasco fez um trabalho comparativo de imagens e concluiu que o "Quarteirão onde ocorreu a fundação do Vasco pouco se modificou em mais de 100 anos":
"A comparação entre as duas fotos abaixo não deixa dúvidas sobre o endereço que corresponde, atualmente, ao local de fundação do Vasco. O quadrado vermelho assinala, nas duas fotos, o prédio onde o clube foi fundado. A foto de cima, de Augusto Malta, é de 1908 e mostra o local apenas 10 anos após o evento.   O endereço já não é mais Rua da Saúde 293, e sim Rua da Saúde 345, devido ao decreto de 1907 da prefeitura que havia alterado a numeração dos imóveis da rua. A foto de baixo é do Google Maps, em 2011, e mostra a Rua Sacadura Cabral 345. Percebe-se facilmente que a estrutura dos imóveis pouco se modificou em 103 anos, e alguns prédios permanecem praticamente iguais."


*Nota do Blog: A conclusão a partir das imagens é a "cereja do bolo" desse trabalho de pesquisa. Para se conseguir aferir a localização do local de fundação do club em 1898, foram realizadas buscas em diversas fontes, uma vez que a rua da Saúde passou por diversas revisões de numeração entre 1841 e 1893. Ora feitas pelo então Senado da Câmara Municipal, ora feitas pelos proprietários dos imóveis construídos em terreno de marinha e aforamentos.
   Normalmente quando há uma revisão aditiva de numeração, acresce-se o novo número em progressão aritimética simples. Mas tal não ocorreu com a Rua da Saúde, onde constavam imóveis com uma mesma numeração com a adição da letra "A" para diferenciação, ou a supressão de numeração para a aglutinação de prédios recém construídos sobre dois ou mais terrenos, por vezes redesignadas para ruas tranversais. A tarefa inicialmente foi difícil. A revisão feita pelo membro da comissão de tombamento do município da Corte, João Cruvello Cavalcanti, foi a última realizada antes da designação do n.º 293 da Rua da Saúde ao tempo da fundação do Vasco, em 21 de agosto de 1898. Antes dela, o trecho compreendido pelo quarteirão da Praça da Harmonia tinha numeração própria, O endereço era então era Praça da Harmonia, n.º 21 (Edward Gotto - 1876, op cit.). A própria rua da Saúde ainda possuia trechos com nomes diversos, como São Francisco da Prainha (até a rua do Escorrega) e Nova de São Francisco da Pranhinha (até a Praça Municipal, hoje Praça Jornal do Comércio, no cruzamento da Rua Barão de Tefé), com numeração integrada e confusa. 
   Com a supressão do endereço da Praça da Harmonia a partir de 1876, passou o imóvel a ser designado pelo n.º 285 (J. C. Cavalcanti. op. cit. p. 293), com a rua da Saúde assumindo a numeração em ordem crescente desde o seu início (na Praça Mauá, então Praça 28 de Setembro) até o seu fim (na rua Conselheiro Zacarias, antiga Boa Vista).
   Entre os anos de 1878 e 1893 nova revisão foi realizada pelos mesmos motivos acima apontados. Deixou então o Senado da Câmara Municipal de realizar a publicação de editais públicos contendo o ról da numeração revisada sobre a rua específica, em que se destacava a antiga e a moderna. Foi somente através da pesquisa de periódicos antigos do acervo da Biblioteca Nacional, que continham anúncios classificados ou fatos jornalísticos de época; da consulta de  plantas e croquis do acervo do Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro, bem como do Livro de Registros do 1.º Serviço Registral de Imóveis da Cidade do Rio de Janeiro, é que se pôde inferir a correta localização do imóvel procurado, seguindo a seguinte ordem:

1) Na coleção de plantas da antiga Prefeitura do Distrito Federal localizamos o imóvel de n.º 289 da Rua da Saúde arquivado no ano de 1900 (fls. 196/220), cuja planta contém a exata fachada do atual n.º 341 da Rua Sacadura Cabral, esquina com a rua São Gregório. Vide primeiro imóvel da esquerda para a direita na imagem montada pela NetVasco.

2) No 1.º RI, consta o registro n.º 46951, fl. 386, Livro 3-CC do prédio n.º 291 da Rua da Saúde, atual n.º 343, resgistrado em 04/11/1917 (cf. certidão de ônus reais em nosso poder). Vide segundo imóvel da esquerda para a direita na imagem montada pela NetVasco.

3) Na coleção de plantas da antiga Prefeitura do Distrito Federal localizamos as plantas dos imóveis de andar térreo de ns.  295 e 297 da Rua da Saúde, arquivadas respectivamente em 27-12-1895 (cx. 07 - doc. 03) e 1907 (cx. 04  - doc. 49), contendo as idênticas fachadas dos atuais ns. 347 e 349 da Rua Sacadura Cabral. Vide quarto e quinto imóveis da esquerda para a direita na imagem montada pela NetVasco.

4) Por fim, apesar da inexistência de qualquer planta no acervo do Arquivo Público, obtivemos a certidão de ônus real do Primeiro Serviço Registral de Imóveis (1.º RI), onde consta o seguinte: "no livro 3-C, às fls. 436, sob o n.º 155000, transcrito em nome de Manoel Ernestino da Costa, o imóvel à Rua da Saúde n.º 293, antigo 285, ... registrado em 12/09/1893". Do cotejo das informações acima, estava identificado o exato local do prédio onde fora fundado e instalado o Club de Regatas Vasco da Gama, o terceiro sobrado da esquerda para a direita, indicado por um pelo ponto vermelho na imagem montada pela Netvasco, correspondente ao atual n. 345 da Rua Sacadra Cabral.
 **texto originalmente publicado em 23/09/2013 - 16h13m no semprevasco.com