sábado, 28 de dezembro de 2013

RAUL CAMPOS - GINASTA DO VASCO EM 1911



*texto originalmente publicado em 08/09/2013 - 07h41m no semprevasco.com

A PRIMEIRA DIRETORIA DO VASCO

Há exatos 115 anos tomava posse sua primeira diretoria, instalando-se o club na sua primeira sede





   Em 28 de agosto de 1898, há exatos 115 anos e após 8 dias de sua fundação, tomou posse a 1.ª diretoria eleita do Club de Regatas Vasco da Gama, no salão da Estudantina Arcas. Acorreram ao solene evento cerca de 100 novos vascaínos que, em seguida, dirigiram-se para a sua primeira sede provisória no Largo da Imperatriz (Praça Municipal). Os jornais da época registraram o fato para que ficasse marcado na memória vascaína.

   Os membros eleitos da diretoria foram os seguintes:
   - Presidente: Franscisco Gonçalves do Couto Junior
   - Vice-Presidente: Henrique M. Ferreira Monteiro
   - 1.º Secretário: Luiz Antonio Rodrigues
   - 2.º Secretário: João Bellieni Salgado
   - 1.º Tesoureiro: Antonio Martins Ribeiro
   - 2.º Tesoureiro: Dr. Henrique Lagden (Médico e Intendente da Câmara Municipal)(1)
   - Diretor de Regatas: João Cândido de Freitas
   - Conselho de 5 membros: José de Souza Rosas
                            Alberto Pinto Cardozo Almeida
                            Manoel Teixeira de Souza Junior
                            José Alexandre D'Avellar Rodrigues(2)
                            Luiz F. de Carvalho

     A eleição da primeira diretoria, ocorrida na assembleia de instalação do club em 21 de agosto de 1898, como não poderia deixar de ser, esteve recoberta de estranho incidente como reportado por José da Silva Rocha (Rochinha), em sua obra Club de Regatas Vasco da Gama: Histórico - 1898/1923, onde o autor comenta que o indicado para ocupar o cargo de Diretor de Regatas fora um dos 5 promotores iniciais da fundação: José Lopes de Freitas - o Zé da Praia,  rower (remador) com maior qualificação para condução técnica do esporte-mãe do club. A celeuma teria se dado em razão da confusão havida entre as iniciais dos nomes e sobrenomes - J.F. Freitas por J.C. Freitas, ficando o dito pelo não dito.

   Os laços com a imprensa da época já se faziam sentir, quando logo em seguida à posse já anunciavam a disposição da diretoria em articular o desenvolvimento náutico do club, com as seguintes notas jornalisticas:

   "O Club de Regatas Vasco da Gama, recentemente fundado, tem em construção em diversos estaleiros d'esta capital as embarcações que formarão a sua esquadrilha."

   "O novel e promettedor club possue uma bella e futurosa flotilha para as lides do sport nautico, composta dos seguintes barcos: uma baleeira a 4 remos do Sr. Pedro Massiéra; uma a 6 remos, no estaleiro do Sr. Herculano; duas a 4 remos, sendo uma de nome Vaidosa, nos do Sr. Bellieni; uma canôa a 4 remos, já prompta, de nome Zóca, tendo o patrão e tripolantes desta última feito a offerta da bandeira, mastro e estandarte do Club."(3)

   "O novo e esperançoso Club de Regatas Vasco da Gama foi domingo ultimo visitado em sua sede por varias embarcações dos clubs co-irmãos desta capital, cujas guarnições lhe foram levar as boas vindas ao seio do sport nautico, sendo recebidas com a maior cordialidade pelos directores do novo club, que lhe affereceram um lunch, trocando-se afectuosissimos brindes entre os representantes do Club de Botafogo, do Club Natação e Regatas, do Club do Flamengo e do Club Boqueirão do Passeio."(4)

   Essa primeira diretoria eleita também era provisória, com mandato somente até o final do ano de 1898, uma vez que outra foi eleita a 8 de janeiro de 1899 para cumprir o mandato seguinte de 1 ano, mantendo-se Francisco Gonçalves do Couto Junior à frente da presidência.

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Vascainidades:

(1) Cargo correspondente a de vereador na então Câmara Municipal do Distrito Federal.
 

(2) O jornal "O Século",  de 21/08/1906, p.3, apresentou o rol completo de conselheiros fiscais eleitos a 21/08/1898.
 

(3) A bandeira original do Vasco, feita de flanela e hasteada no dia 28 de agosto de 1898 na sua sede provisória no Largo da Imperatriz, sempre foi a que conhecemos: campo negro, faixa diagonal branca em dupla face iniciada a partir do alto do mastro, a Cruz da Ordem de Cristo em vermelho.  Naquele tempo era de conhecimento e uso geral para a cruz das náus, medalhas e símbolos portugueses relativos às "Grandes Navegações (expansão marítima portuguesa)" a designação "Cruz de Malta", sem qualquer correlação com a Ordem dos Cavaleiros de Malta (oficialmente Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta) conforme verificamos em nossas pesquisas feitas nos jornais publicados anteriormente a 1898, bem como em livros estrangeiros de heráldica daquele tempo, sendo ainda hoje utilizada desta forma genérica por diversos países europeus. A conclusão: A designação Cruz de Malta, indicada desde a origem, não contém qualquer equívoco naquele tempo, traduzindo o desejo dos fundadores em referir-se à Cruz da Ordem de Cristo no exato desenho, adotado que foi na bandeira do club desde a fundação, correspondente a iconografia dos festejos do 4.º Centenário dos descobrimento dos caminhos das Índias por Vasco da Gama
 

(4) O evento se deu no domingo a 4 de setembro de 1898. Os clubes acessaram o Largo da Imperatriz pelo Cais da Saúde (ou da Imperatriz), como mostra na foto acima.  O Club Natação e Regatas é o atual Clube Santa Luzia, com sede no Calabouço.  O Vasco foi saudado por todas as guarnições que compareceram ao evento seguindo o protocolo de saudação náutico militar, em que os remadores encimaram os remos ao alto (ato que consiste em retirar os remos da forqueta, posicionando-os verticalmente junto ao remador, com as pás para o alto, seguras pelas mãos). Recentemente o cais foi redescoberto e mantido aberto como ponto de visitação histórica da cidade pelas obras do Porto Maravilha.

*texto originalmente publicado em 30/08/2013 - 10h23m no semprevasco.com

VASCO CAMPEÃO DO TORNEIO INÍCIO DE 1931



*texto originalmente publicado em 10/06/2013 - 08h13m no semprevasco.com

1937 - SÃO JANUÁRIO, SEDE DO RUGBY - ESPORTE EXIBIÇÃO DO VASCO

Em iniciativa inédita, as equipes de rugby do Vasco fizeram a preliminar daquele que viria a ser o "Clássico da Paz"



   Estamos no século XXI - maio de 2013.  Os sócios do Vasco, Marcelo Paiva e André Pedro, do site WebVasco e Marcus Simonini do blog Incondicionalmente Vasco, comparecem ao programa de rádio Caldeirão Vascaíno e expõem o desejo de que o clube possa fomentar em seu estádio a prática do Rugby.

   Agora vejamos o século XX - meados de 1936.  Viajamos no tempo dos registros históricos da memória vascaína e voltamos ao passado há exatos 77 anos.  Dois sócios, dirigentes do Vasco:  Álvaro Loureiro, este como diretor do recém criado departamento de rugby e Cabral de Almeida, preparador da equipe.  Ambos se dispõem à empreitada de difundir o "football rugby" entre os sócios-atletas do clube.


A criação do Departamento de Rugby

   O jornal Diário de Notícias Sportivo, noticiava a 23 de setembro de 1936 que há algum tempo o C. R. Vasco da Gama tomou a feliz iniciativa de criar o Departamento de Rugby, em atitude digna de franco apoio.

   Convocações de sócios-atletas dispostos à prática do esporte são feitas a partir de 10 de agosto de 1936 pelos jornais do então Distrito Federal, que festejam a iniciativa.  O treinamento é feito tanto no estádio de São Januário como na histórica praia de Santa Luzia.

   O próprio entusiasta do rugby, Álvaro Loureiro, também incentivador da prática do ciclismo, da natação e do water-pólo no Vasco, esclareceu em depoimento à imprensa em abril de 1937, o porquê de se treinar na praia:

   "- Desde as vésperas do natal de 36 que eu não reúno os rapazes para treinarem em São Januário.  Dei-lhes férias, bem prolongadas... mas é preciso.


   - Preciso dizer que não temos ensaiado no gramado, entretanto estamos fazendo uns treinos na praia. Coisa leve, apenas para que os rapazes não percam o gosto pelo Rugby.


   - Resolvi esta modalidade de treinamento, visando dois objetivos: o primeiro, para que os Rugby-players tenham mais interesse pelo treino.  Você compreende, na praia eles são vistos pelas mocinhas e daí nascer neles um entusiasmo grande do qual resulta um treino proveitoso.  O segundo objetivo é com os ensaios em público conseguir elementos para o quadro e fans para o Rugby".

   O rugby vascaíno era exibido internamente para a família vascaína entre duas equipes de "quinze" que disputavam entre si. Tais encontros ocorriam nas festas desportivas proporcionadas pelo clube, quando eram exibidas diversas modalidades dos então denominados "torneios íntimos".  A exibição do rugby ainda se deu na preliminar do campeonato juvenil de futebol da cidade do Rio de Janeiro, quando estreiou a 9 de agosto de 1936, em São Januário.


A preliminar do Clássico da Paz

   Diante de tanto esforço, surgiu uma a grande oportunidade de divulgação do rugby ao público em geral.  À 31 de julho de 1937 estava designado o confronto amistoso que a imprensa esportiva da época já nomeava como a "Batalha da Paz" ou o "Clássico da Paz".  Após 4 anos de cisão, Vasco e América iriam disputar a primeira partida entre os clubes de futebol do Rio de Janeiro ligados às antigas LCF - Liga Carioca de Futebol e FMD - Federação Metropolitana de Desportos, que se fundiram para a criação da Liga de Football do Rio de Janeiro - LFRJ.

   A iniciativa vascaína teve repercurssão. Era noticiado que a própria Federação Metropolitana criou a 7 de junho de 1937 o departamento de rugby da entidade.  Os jornais da época anunciaram a preliminar com certo destaque.

   O resultado da apresentação foi controverso, diante da falta de cultura para o esporte que era estranho para o público.  No dia seguinte ao match, os jornais nem se preocuparam em divulgar o score do jogo, mas somente comentários mínimos.

   O jornal "Gazeta de Notícias" afirmava que a "disputa entre os dois "quinze" do Vasco da Gama, revestiu-se de grande sensacionalismo, devido a ser a primeira apresentação nas canchas brasileiras.  Entretanto, falta muito para constituir uma luta empolgante e cheia de interesse como se dá nos Estados Unidos", confundindo o rugby com "football americano".
   O "O Globo" afirmou que os rugby-players do Vasco fizeram um interessante match de exibição, que por várias vêzes entusiasmou a assistência em face das múltiplas peripécias ora empolgantes, ora hilariantes.


Lance da partida de exibição (O Globo)


   Já o "Diário de Notícias" esclareceu que o jogo foi disputado com ardor!  Fato é que não se teve mais notícia de nova exibição do rugby vascaíno para o público em geral, apesar das notícias do funcionamento do referido departamento até o fim do ano de 1939.

   Em 1940 o Conselho Nacional de Desportos passou a reger o esporte nacional e suas modalidades, inclusive o rugby, deixando este de ser praticado no Vasco.

   Por fim, voltando ao século XXI, fica a pergunta! Poderá o Vasco voltar a praticar o rugby?  Se não nos esquecermos do remo (esporte matter), do basquete, da natação, do futebol de salão, dentre tantas outras modalidades esportivas em que o Vasco gloriosamente já se sagrou campeão, a resposta é simples: porque não?





Os rugby-players que se exibiram na preliminar do Clássico da Paz
Equipe Negra (A): Amorim - Xavier - Dario - Luiz - Elisário - Soares - Luciano -
Valdemar - Alexandre - Anjinho - Matelo - Anselmo - Domingos - Almeida e Alicate
Equipe Branca (B): Urbano - João - Duque Estrada - Orlando - Ferramenta - Lobianco -
Antero - Juvenal - Leandro - Gouveia - Rufino - Carvalho - Ferer - Nicolau -
Vencesláu - Ferraro - Murray - Rapuano e Arlindo
Juízes: Álvaro Loureiro e Cabral de Almeida

*texto originalmente publicado em 23/05/2013 - 15h00m no semprevasco.com

A FUNDAÇÃO DO VASCO - CAIS DO VALONGUINHO

Situado na atual Praça da Harmonia, local de fundação do Vasco existe até hoje




   A ata de fundação do Club de Regatas Vasco da Gama é o registro de nascimento do clube, datado de 21 de agosto de 1898, consta dele o local de sua instalação: à Rua da Saúde, n.º 293 - junto ao Cais do Valonguinho, ao lado do Moinho Fluminense.

   O local existe até hoje, situado na atual Praça da Harmonia, na região portuária surgida com o aterro do cais do porto, construído a partir de 1905.

   Por quase 1 ano o Vasco foi um clube da região portuária, antes de se transferir para o Passeio Público.

   O registro fotográfico da época é fundamental para a memória vascaína, pois o Vasco nasceu para ao mar!


Cais do Valonguinho, local de fundação do Vasco.
À esquerda o Moinho Fluminense com seu atracadouro interno, de onde era descarregado o trigo importado. Ao fundo, a Rua da Saúde (atual Sacadura Cabral) onde está situado o sobrado em que se instalou nosso clube, aparecendo ainda o primitivo prédio do atual batalhão de polícia militar.  À direita  o Morro da Saúde.

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*foto do acervo do Arquivo Público do Estado de Minas Gerais
**texto originalmente publicado em 05/05/2013 - 11h34m no semprevasco.com

ESTÁDIO VASCO DA GAMA: O PALCO DA LEI DO SALÁRIO MÍNIMO

Há exatos 73 anos, São Januário festejou o Dia do Trabalhador




     Por diversas vezes a história do Vasco esteve indelevelmente ligada à história da nação.

   Seu estádio, cantado como o maior do continente na data de sua inauguração, foi palco de destacados épicos esportivos, o último deles foi a marca dos 1000 gols de Romário!

     Mas no que tange às atividades político sociais, São Januário era o palco de Getúlio Vargas, que nele anunciou há exatos 73 anos, a criação do salário mínimo.

     O jornal A Noite teve oportunidade de registrar esse momento, que agora vamos reproduzir para orgulho da memória vascaína:


"Corrigidos os abusos e imprevidências do passado, disse o presidente Getulio Vargas, poderemos encarar o futuro com serenidade, certos de que as utopias ideologicas, na pratica verdadeiras calamidades sociais, não conseguirão afastar-nos das normas de equilíbrio e bom senso em que se processa a evolução da nacionalidade"


A BELA SOLENIDADE TRABALHISTA DO ESTADIO DO VASCO DA GAMA - O DISCURSO DO CHEFE DA NAÇÃO E AS MANIFESTAÇÕES COM QUE O ACOLHEU O POVO - ASSINADA A LEI DO SALÁRIO MINIMO - A PALAVRA DO MINISTRO DO TRABALHO - DELEGAÇÕES DE TRABALHADORES E ENORME MASSA POPULAR NA PRAÇA DE SPORTS DE SÃO JANUÁRIO




   Foi uma bela solenidade, de significado inconfundível, a concentração trabalhista realizada no estádio do Vasco da Gama.

   A presença do chefe de estado da Nação, ministros de Estado e altas autoridades deu excepcional realce ao acontecimento, que assinala mais uma etapa vitoriosa das conquistas do trabalhador, sob os auspícios do Estado Novo.

   A maior vibração, porém, dada a essa cerimônia foi emprestada pelo proletariado que se rejubilou pela assinatura da lei que institue para todo o Brasil o salário mínimo. Esta medida, de funda significação social e econômica, vem elevar o nível do trabalhador nacional, melhorando a suas condições de vida, de modo a refletir-se beneficamente na situação geral.

   O soberbo espetaculo que apresentava na tarde de ontem o estádio do Vasco da Gama era, sem dúvida, o atestado mais incisivo da perfeita identidade do proletariado nacional com o Estado Novo, que, dentro das nossas possibilidades, vai outorgando direitos e garantias efetivas, sem olvidar as famílias dos trabalhadores, que formam o tronco vigoroso da raça de amanhã.

   A espontaneidade das manifestações, o jubilo comunicativo que a todos inflamava naquele instante, atestam de maneira altamente expressiva uma consciencia coletiva inspirada num reconhecimento perfeito aos poderes constituidos.

   Valeu essa festa por uma reafirmação grandiosa e consagrativa da gratidão do trabalhador pelo desvelo com que o governo do sr. Getulio vargas tem procurado erguer o seu nivel moral e material.

   Uma serie de medidas de grande alcance humanitario e social já se tornou realidade, em beneficio das classes tabalhadoras. A lei do Salario Minimo é, agora, uma dessas providencias que se entrozam com outras, no alevantado intuito de dar ao proletariado brasileiro o lugar a que tem direito no conjunto de nossos destinos de povo bem orientado.


ASPECTO DO ESTADIO

   Era de rara imponencia o aspecto do vasto estadio do Vasco da Gama. Muito antes da hora marcada para o inicio da solenidade começaram a afluir áquela praça de sports grupos de operarios e familias, representações de sindicatos, condunzido paineis com dizeres ao ato que se ia realizar.

   Antes das dezesseis horas era enorme a multidão que enchia as arquibancadas, as tribunas reservadas aos convidados e outras dependencias do campo do Vasco.

   Alto-falantes foram instalados em todos os recantos do estadio, afim de permitir á assistencia a audição perfeita do programa.

   No extremo do lado direito foi levantado um palanque, para as bandas de musica, os artistas e o coro que deviam tomar parte do programa.

   Ao fundo, uma artistica alegaria ao Estado Novo, ladeada por duas enormes bandeiras nacionais. Figuras alegoricas do trabalhador brasileiro e sua familia completavam o empolgante cenario.

   As tribunas especiais estava repletas de representações proletarias e patronais e outros convidados.

   Os auto-falantes irradiavam musicas populares, através do Departamento de Propaganda, que, tambem anunciava o desenrolar da solenidade.

(...)

    O hino nacional vibrou afinal, encerrando a brilhante solenidade.

   O Sr. Getulio Vargas, acompanhado do ministro do Trabalho e de todos os demais ministros e altas autoridades, retirou-se, sob aclamações.

   S. Ex., ao tomar o carro, viu-se grandemente aplaudido, de novo, pela multidão.

   Na rua, a multidão tornou a ovacionar com delírio o chefe da Nação, que sorrindo agitava o chapéu, agradecendo aquela espontanea manifestação popular.

   - Toda cerimonia de ontem, no estadio do Vasco da Gama foi irradiada pelo Departamento de Propaganda."

(*) texto originalmente publicado em 20/04/2013 - 08h33m no semprevasco.com
(**) reprodução do texto original conforme grafia da época.
(***) reportagem do jornal A Noite, de 2 de maio de 1940
(****) fotos do jornal A Noite e do CPDOC da FGV

A EPOPEIA VASCAÍNA: SÃO JANUÁRIO!

O Vasco não tinha quase nada. A colônia se mexeu e fez o maior estádio do Continente.

 


O Stadium Vasco da Gama, conhecido popularmente como Estádio de São Januário, está completando 86 anos, neste dia 21 de abril de 2013.

   Sua história, indelevelmente ligada às superações vascaínas, foi marcada pela luta contra o preconceito e a intolerância que mesmo nos dias de hoje permeiam a sociedade. Somente o torcedor do Vasco sabe como enfrentá-las: com coragem, galhardia, e a dose certa de arrogância.

   Em homenagem ao aniversário de seu estádio, resgatamos para a memória vascaína a brilhante reportagem realizada a quase 40 anos pelo jornalista Maurício Azêdo, que registrou a entrevista de Pascoal, um dos líderes dos camisas negras, campeão da campanha histórica de 1923 - cuja saga também está sendo retratada em paralelo pelo site SempreVasco no Blog do Bacchi - que retrata o rompimento de todos os paradigmas sociais e esportivos da época e alimentou a epopeia vascaína para a construção do então maior estádio do continente; bem como de um dos maiores vascaínos que o Vasco já teve como dirigente, José Ribeiro de Paiva, o Almirante.

   A reportagem foi publicada pela Revista Placar de abril de 1977, que abaixo transcrevemos com a inclusão de algumas fotos originais da matéria e de nosso acervo:


"São Januário faz 50 anos. Meio século de lutas para que o pobre e o negro engrandecessem o futebol brasileiro. 


O TEMPLO DO POVO

O estádio com sua bela fachada colonial ao tempo de sua inauguração 

 
   A festa é nessa quarta-feira, com o Vasco enfrentando o Santos como há cinco décadas, pois naquele tempo nenhum clube carioca merecia inaugurar o estádio construído com lágrimas e suor daquela gente discriminada pela cor, pela nacionalidade ou pela posição social. E de portões abertos, porque a festa é do povo.

   - Era uma coisa horrível. O mínimo que nos chamavam era de galego. Durante o jogo inteiro, os torcedores ficavam a nos ridicularizar, imitando voz de português e gritando "cadê os tamancos? Cadê os tamancos?". No dia da nossa estréia na primeira divisão, contra o Andaraí, no campo do Botafogo, a hostilidade era tanta que nosso contramédio Bolão, não agüentando de raiva, chegou a propor isto: "Temos que dar com a cabeça na baliza, botar o coração pela boca, mas não podemos perder esse jogo". E realmente não perdemos: empatamos de 1 a 1. No jogo seguinte, vencemos o América por 2 a 1.

Pascoal Cinelli, campeão de 1923


   Na pequena casa de sala, quarto e cozinha de uma vilazinha no subúrbio carioca de Maria da Graça, Pascoal Cinelli faz esforços para se lembrar de um ou outro detalhe.


Scratch vascaíno na estréia contra o "Andarahy" em 1923


   Surpreende-se quando não consegue ("Meu Deus, que memória!"), mas de modo geral recorda das coisas com nitidez: fatos e pessoas vão recobrando vida, parecem movimentar-se no álbum de fotografias que ele vai repassando com emoção, mas sem tristeza. É um profundo mergulho no passado: tudo isso ocorreu há 60, 50 anos. Pascoal, 77 anos, é um dos remanescentes do time que deu ao Vasco o primeiro título de campeão carioca, em 1923. E revê o time inteirinho: Nélson, Leitão e Mingote; Brilhante, Bolão e Artur; ele. Torterolli, Arlindo, Ceci e Negrito.

   - Eles ficaram danados com a nossa vitória. Foi uma revolução. Uma revolução mesmo. Pela primeira vez um clube ousava utilizar jogadores negros num time da primeira divisão e, mais que isso, ganhar o campeonato contra os brancos do Fluminense, do Flamengo, do América, do Botafogo. Jogador negro o América já possuía, como o mulato Manteiga, mas sem essa audácia de ser campeão. Esse Vasco da Gama, além do mais, já se mostrara insolente na segunda divisão, ao conquistar o título de campeão de 1922 com os mesmos negros, mulatos e brancos de origem social pouco recomendável.

   Como Pascoal: se soubessem que ele era filho de um italiano que vendia peixe no mercado municipal, dificilmente lhe seria permitido jogar num clube da primeira divisão.

   - Olha, eu nunca pensei em jogar futebol pra valer. Eu batia minha bola num clube sem expressão, o Municipal, quando um sócio do América, Álvaro Damião, me levou para treinar lá. Depois andei treinando pelo São Cristóvão, ganhei 2 mil réis só para isso. Resolvi então trocar tudo em vinténs e cheguei em casa com o bolso cheio de moedinhas: meu pai tomou um susto, quis saber de onde vinha aquele dinheiro, temendo que eu o tivesse afanado de alguém. Precisei levar o Álvaro Damião lá, para ele confirmar a história.

   O namoro de Pascoal com o futebol coincidia com o interesse do Vasco em montar uma equipe mais poderosa. Pelos subúrbios e bairros, como a Saúde, então ocupada por vários campos de pelada, o Vasco já havia encontrado alguns jogadores extraordinários; o goleiro Jaguaré e o zagueiro Espanhol vieram do Pereira Passos, clube sem qualquer renome. Diante de tanta insistência de Pascoal Pontes, um diretor do Vasco que era também o maior jogador de bilhar da época, o jovem Pascoal Cinelli resolveu finalmente ceder. às 5 horas da manhã de um sábado para domingo, fechou o bar que mantinha num bloco carnavalesco da Saúde, o Magnólia, estirou a bandeira do clube no chão e se deitou. Às 6, nem havia ferrado no sono. Pascoal Pontes foi buscá-lo. Às 11 seria a estréia, num jogo Vasco x Escrete da Marinha, no campo do Flamengo.

   - Eu acabei fazendo o gol da vitória do Vasco por 1 a 0 e nunca mais saí do time, mas a verdade é que entrei por causa de um ardil do seu José Ribeiro de Paiva, tesoureiro do vasco. O ponta-direita titular era o Fernandes, mas o seu Paiva tinha ouvido falar que eu era "um garoto espetacular na ponta" e resolveu forçar a minha escalação. Ele chamou o Fernandes, mostrou uma nota de 20 mil-reís e perguntou: "Fernandes, se eu te der esta nota você fica com dor de cabeça e pede para ser dispensado?". Ao ver o dinheiro, Fernandes não vacilou: "Ai, seu Paiva, estou com uma dor de cabeça que não agüento, estou muito ruim". Depois disso, o Fernandes sumiu. Nunca mais dei chance a ele.

   Com Jaguaré, Espanhol, Pascoal e outros jogadores de origem obscura, o Vasco derrotou todos os grandes, à exceção de um, o Flamengo, que no segundo turno passou a encarnar as esperanças de todos os integrantes da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres. Nunca o estádio do Fluminense havia acolhido tanta gente: já na preliminar, a polícia mandou fechar os portões, porque não cabia mais ninguém na geral, na arquibancada, na pista. Todos unidos contra o Vasco, cujos torcedores, além de suportar os gritos de mofa e hostilidade ("Entra, basco, que meu marido é sócio"), são agredidos a golpe de pás de remo embrulhadas em jornal, para camuflá-las, pelos torcedores inimigos. O Flamengo toma a dianteira de 2 a 0 no primeiro tempo, mas o Vasco começa reagindo, diminuindo a diferença. O Flamengo aumenta para 3 a 1, o Vasco volta a diminuir, faz o gol de empate, mas o juiz carlito Rocha, escolhido a dedo pela liga, por homem do Botafogo, decide que a bola não entrou.

   Uma festa salvagem, com passeata e carnaval pela cidade, bombardeio de fogos contra a Cervejaria Vitória, reduto dos portugueses, dá prosseguimento aos conflitos que espocaram no estádio durante todo o jogo. Alta madrugada, um tamanco de dois metros e meio de altura é pendurado na sede do Vasco na rua Santa Luzia, perto da praia. Ao lado, é posta uma coroa de flores. Na praça Paris, o gigantesco monumento a Pedro Álvares Cabral é ornamentado com tamancos e résteas de cebola.



A nova liga

   Para a Liga, não basta transformar o Flamengo em partido dos brasileiros, contra o partido dos portugueses, o Vasco. É preciso mais contra esse time que recorre a negros e subverte as regras dominantes no futebol. Mario Polo, dirigente do Fluminense, encontra uma solução jurídica: cria-se uma nova liga e exige-se que os integrantes da primeira divisão tenham outros esportes além do futebol: atletismo, tênis, basquete. O Vasco, egresso há pouco da segunda divisão, não tem nada disso. E terá de retornar à origem ao lado do Mangueira, do Americano, de outros clubes onde a presença de negros não seja ofensiva.

   Sem condições de expor claramente o verdadeiro motivo de seu veto à ascensão do Vasco da Gama, os grandes clubes - Fluminense, Flamengo, Botafogo, América e Bangu, este então com status de grande porque estivera muito ligado ao aparecimento do futebol no Rio - encontram outra forma sinuosa de reduzir o poderio com que surte o novo adversário. O Vasco seria marginalizado, não porque abrigasse negros ou mulatos em sua equipe, mas porque seus jogadores são apontados como não-amadores. Isso é, obtêm alguma forma de remuneração no futebol. Em suma: o Vasco atentava contra a suposta pureza do amadorismo.


Falso Amadorismo

   Pascoal confessa que na verdade o amadorismo então praticado não era tão olímpico e desinteressado quanto alegavam muitos dos dirigentes do futebol. Embora não recebessem salários, os jogadores eram gratificados por vitória, e os prêmios variavam de valor segundo a importância do jogo ou do adversário. Dessa prática adviria a denominação "bicho" hoje incorporada às instituições do futebol: se a nota do prêmio era de 5 mil-réis, dizia-se que era "um cachorro"; se 10 mil-réis, "um coelho". Para não se falar em dinheiro e pagamento, usavam-se referências símbolos extraídos do jogo do bicho, já então muito popular. Falava-se de um galo para iludir a um prêmio de 50 mil-réis, uma vaca de uma perna, 100 mil-réis, de duas pernas, 200 mil-réis.

   - Eu me lembro de que uma vez ganhei um bicho de 200 mil-réis, o suficiente para dar entrada numa casa - conta Pascoal, que dá uma idéia do valor desse prêmio; um quilo de batata custava, naqueles bons idos de 1923, a bagatela de 200 réis.

   No caso do Vasco, a Liga considerava que bastaria provar que seus jogadores não trabalhavam para impugnar a presença de inúmeros craques da equipe campeã. Se não trabalham e conseguem sobreviver, é porque recebem dinheiro de clube. Uma comissão de sindicância se incumbia de apurar, até mesmo com inspeções um locais de trabalho, se os jogadores exerciam uma atividade regular. Compõem-na homens declaradamente ligados a clubes: Reis carneiro, do Fluminense; Diocesano Ferreira Gomes, o Dão do Flamengo; e Arnaldo de Paulo Freitas, do América. Da obrigação de trabalhar estão isento apenas os estudantes; estes são naturalmente filhos de boas famílias, têm seu lugar garantido. Mas os jogadores do Vasco trabalhavam. Uns de verdade, como Pascoal, que se lembra do seu emprego à época, como vendedor de uma fábrica de móveis na rua Senador Eusébio, ou como Torterolli e Bolão, que trabalhavam na Singer. Outros, apenas para atender à exigência da Liga. Não faltavam membros da colônia portuguesa que ofereciam emprego a jogadores do Vasco da Gama ou que atestavam, só para constar, que algum deles trabalhava em sua empresa. E o emprego não podia ser daqueles então considerados como subalternos: o de soldado ou marinheiro, de estivador, nem de garçom, de barbeiro, de chofer, profissões em que se pudesse receber gorjetas.

   Contra o Vasco, a comissão de sindicância decide ir muito além: ao lado das inspeções nas firmas dadas como local de trabalho dos jogadores, passa a exigir que estes preencham com o próprio punho minuciosa ficha de registro. Até então, uma das formas de assegurar que o futebol fosse extremamente seletivo era a exigência de que eles assinassem, a súmula, o que significava a preservação do futebol como esporte das elites, pois os rapazes dos subúrbios, e sobretudo os de origem negra, geralmente eram analfabetos e não poderiam atender a esse requisito elementar.

   "A papelada de inscrição tornou-se quase um exame de primeiras letras. Uma porção de perguntas, nome por extenso, filiação, nacionalidade, naturalidade, dia em que nasceu, onde trabalhou, onde estudava, etc., etc." - conta Mario Filho em O Negro no Futebol Brasileiro, revelando que a discriminação dirigida ao Vasco ficou evidente no caso de um jogador, Leitão. Conta Mario:

   "Quando Leitão era do Bangu, a Liga não se incomodou com ele. Bastou ele ir para o Vasco, teve de assinar a papeleta de inscrição na frente de Célio de Barros, então presidente da Liga Metropolitana. Célio de Barros, não tirando os olhos de cima de Leitão. Leitão, suando frio, parecia que não ia acabar nunca de encher a papelada. E sabia assinar o nome, sabia rabiscar as suas coisinhas".

   As discriminações culminaram com o isolamento do vasco, através da criação da nova Liga, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), em que os cinco grandes estabeleceram as condições para o ingresso do Vasco: além da eliminação de 12 jogadores, exigiam que o Vasco tivesse um estádio à altura, como o Fluminense, como o Flamengo, com seu campo na Rua Paissandu, como qualquer outro dos grandes. Para o Vasco essa exigência era incontornável.

   - Nesse tempo - diz José Ribeiro Paiva, o velho Paiva - o campo do Vasco era na rua Morais e Silva, perto da praça da Bandeira, muito distante da nossa sede de hoje, São Januário. E não podia mesmo ser classificado como estádio: era um campo muito modesto, pobre, com uma arquibancada de madeira muito vagabunda. Não tínhamos condições de atender à exigência da nova liga.

José Ribeiro de Paiva, o Almirante


Posição digna

   Longe de se abater, O Vasco reagiu com altivez, à violência de que era vítima. Assim que os jornais divulgaram a resolução adotada pela AMEA na véspera, o presidente do Vasco, o engenheiro José Augusto Prestes, dirigiu um ofício ao presidente da liga, o milionário Arnaldo Guinle, patrono do Fluminense, declarando que repelia as imposições e que por isso recusava participar da nova liga.

   Até hoje o texto dessa declaração é motivo de orgulho dos vascaínos ciosos da tradição de dignidade do clube. Em sua mesa de diretor da Almeida Comércio e Indústria de Ferro S. A., onde trabalha desde que se entende como gente, o velho Paiva tem sempre disponível uma cópia desse documento de protesto e denúncia: 

   "As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da associação a que V. Exa. tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa situação de tal inferioridade que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.

   Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.

   Quanto à condições de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consórcios, investigações levadas a tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

   Estamos certos de que V. Exa., será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entra outras vitórias a do Campeonato de Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923.

   São esses doze jogadores jovens quase todos brasileiros no começo de sua carreira, e o ato público que pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu nem sob o pavilhão que eles com tanta galhardia cobriram de glórias.

   Nestes termos, sentimos ter de comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.

   Queira V. Exa. aceitar os protestos da consideração e da estima de quem tem a honra de subscrever de V. Exa. AT. Vnr. Obrigado. (a) Dr. José Augusto Prestes, presidente".

   - Essa carta - lembra seu Paiva com impressionante exatidão de dados - despertou os brios do Vasco da Gama. Foi o rastilho que empolgou o corpo social e todos quantos simpatizavam com o clube, que passaram a pedir filiação como sócios. Decidimos então construir nosso estádio, como uma resposta à indignidade que atingia o Vasco. E não faríamos um estádio qualquer, mas o melhor da cidade.


A grande campanha

   A conquista do campeonato de 1923 havia despertado o interesse do Vasco pelo futebol, pois até então o remo era o primeiro esporte do clube. E os vascaínos não pensavam em desenvolver o setor de futebol, por que as despesas com o setor de remo absorviam muitos recursos do clube, pela necessidade de manutenção de barcos, alimentação dos remadores, pagamento de prêmios aos atletas. O futebol, além disso, era uma inovação recente no clube, resultante de sua fusão com outro clube, o Lusitânia, e que chegara a entusiasmar, pois logo em sua estréia na nova modalidade o Vasco fora derrotado por 10 a 0 pelo Paladino, equipe sem maior expressão. Além do título de campeão, havia agora outro fator de mobilização dos vascaínos no setor futebol: a sua exclusão da AMEA pelos cinco grandes.

   Com seus amigos e torcedores sensibilizados pelo gesto altivo do presidente José Augusto Prestes, o clube decidiu então lançar um empréstimo interno para a construção do estádio, através da venda de títulos de 100 mil-réis pagáveis em 20 prestações. Mesmo com a receptividade encontrada pelo apelo da diretoria do clube, essas doações ("Era um emprestado-dado", diz Paiva) eram insuficientes para a obra, orçada em 2 mil contos de réis, sem contar os 665 contos e 895 mil-réis aplicados na compra do terreno, uma área de 65.445 m2 de uma chácara que pertencera à marquesa de Santos.


Fartas doações

   - Tivemos então de apelar para grandes doadores, entre os quais se destacam o industrial Zeferino de Oliveira, dono do Moinho da Luz e homem muito generoso, e a Cervejaria Brahma, que é a instituição que ao longo do tempo mais tem auxiliado o Vasco. Além de doar 25 contos de réis para a construção do estádio, a Brahma montou os bares de nossa sede e depois colaborou na construção da sede náutica do Vasco e do nosso ginásio de esportes - conta Paiva, que assumiu o comando da campanha financeira da obra, como primeiro-tesoureiro do clube.

   Como gestor dos dinheiros do clube, Paiva teve de fazer milagres, pois a obra consumia recursos além dos previstos. Lançada em fins de 1925 sob o nome de Campanha dos Dez Mil, a coleta de recursos se estendeu de 6 de janeiro a 29 de dezembro de 1926, com grande ressonância entre os simpatizantes vascaínos (só nesse ano o clube ganhou mais de 7 mil - 7189 - associados), mas mesmo assim era preciso negociar com bancos para antecipar a arrecadação de fundos destinados ao pagamento das obras. Houve um momento em que o Vasco tinha de pagar ao banco Holandês uma duplicata de 370 contos e contava apenas com 5 contos em caixa. Paiva conseguiu encontrar um comerciante que emprestou 1.000 contos ao clube, mas com a condição de que o Vasco pagasse a dívida em dólares.

   - Meu patrão aqui na firma, Antônio de Almeida Pinho, é quem avalizava as promissórias emitidas pelo clube. Ele não gostava de reformar os títulos, porque os juros oneravam demais o Vasco, aumentando em muito a dívida principal. Mas eu sempre encontrava um argumento que pesava: a dívida que contrariamos nada representava em relação ao patrimônio que o Vasco estava construindo.

   Durante a campanha, Paiva recebeu o apelido de Almirante, que mais tarde se estenderia ao próprio clube. Como tesoureiro, ele era assediado por todo tipo de propostas de colaboração, muitas das quais representavam mais vantagem para o clube. Paiva ouvia a todos com paciência, mas invariavelmente terminava o diálogo com as mesmas palavras toda vez que a proposta se revelava inconveniente: "Eu por mim fazia, mas o Almirante não quer" - dizia ele, insinuando que o almirante Vasco da Gama não gostaria de um negócio de tal natureza.

   O que onerava especialmente a obra era a monumentalidade do estádio que o Vasco planejara. Entre o lançamento da pedra fundamental, a 6 de junho de 1926, pelo prefeito do Distrito Federal, Alaor Prata, e a inauguração do estádio, menos de um ano depois, a 21 de abril de 1927, pelo presidente Washington Luiz, o Vasco tinha não apenas um campo de futebol capaz de silenciar seus adversários no futebol carioca, mas o maior e mais confortável estádio da América do Sul.

Lançamento da pedra fundamental do Stadium Vasco da Gama


   Com capacidade inicial de 30 mil pessoas e área construída de 11.000 m2, custara 1.200 contos de réis, sem contar as despesas com ferro (252 toneladas) e cimento (6.600 barris), fornecidos pelo clube. E do ponto de vista técnico a construção espantava pela ousadia: a sua marquise suspensa constituía uma inovação que inspirava temores quanto à segurança do estádio.

   Do alto dos seus 85 anos, a maior parte de devotamento sem ostentação ao Vasco da Gama (ele não teve filhos e enviuvou há 20 anos, após longa enfermidade da mulher), seu Paiva fica com os olhos cheios d'água e se engasga de emoção quando relembra toda a sua saga, que ainda hoje o espanta:

   - Foi um trabalho fantástico.

   O mesmo Santos Futebol Clube que joga esta semana contra o Vasco da Gama (quarta-feira à noite, com portões abertos), comemorando os 50 anos da inauguração do estádio, teve também o privilégio de fazer o primeiro jogo de futebol na nova praça de esportes. O Santos era então uma das maiores equipes brasileiras, com um atacante extraordinário, o centroavante Feitiço, e venceu o Vasco com facilidade: 5 a 3. Sua equipe reunião Tufy, Bilu e Davi; Alfredo, Júlio e Hugo; O mar, Camarão, Feitiço, Araquém e Evangelista, enquanto o Vasco alinhava alguns campeões de 1923: Nélson, Espanhol e Itália; Nesi, Claudionor e Badu; Pascoal, Torterolli, Galego, Russinho e Negrito.

   À festa estavam presentes o presidente da República, Washington Luiz, ministros de Estado, o presidente da CBD, Oscar Costa, que deu o ponta-pé inicial da partida, e o major J. M. Sarmento de Beires, famoso aviador português, que cortou a fita simbólica. Beires chegava coberto por uma glória só tributada aos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que fizeram a primeira viagem de hidroavião entre Portugal e Brasil, e dava à cerimônia um toque heróico, compatível com a dimensão atribuída pelos vascaínos à campanha financeira do estádio e sua construção.

   Apesar da derrota, naquela tarde o Vasco começava a palmilhar um caminho de grandeza que refletiria no próprio desenvolvimento do futebol brasileiro. Dois anos depois, em 1929, ao fechar a curva de arquibancadas atrás de um dos gols, ele trazia para a festa de inauguração a equipe do Wanderers (Vasco 1 a 0, gol olímpico do ponta-esquerda Santana), abrindo caminho para o intercâmbio de clubes brasileiros. Além de colecionar títulos (campeão carioca de 29, 34, 36, 45, 47 e 49, campeão dos campeões da América do Sul em 1948), passou a contar com equipes que constituíram a base da Seleção Brasileira, numa proporção não igualada nem mesmo pelo Santos de Pelé.

   Ao longo de 20 anos, com o fastigio do Maracanã, a partir de 1950, os próprios vascaínos se esqueceram de que sua grandeza tinha raízes no Estádio de São Januário. A abril de 1972, porém, o Vasco reabria seu estádio de bela fachada colonial, e para marcar essa reinauguração fazia a maior transação do futebol brasileiro na época: a compra de Tostão por 4 milhões de cruzeiros. Não importo que Tostão logo tenha deixado o clube e o próprio futebol; naquele momento, o vasco de hoje procurava justificar a herança de audácia do Vasco descrito no célebre ofício n.º 261, de 7 de abril de 1924, do engenheiro José Augusto Prestes. O Vasco que em defesa de 12 moços proclamava: "O ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu nem sob o pavilhão que ele com tanta galhardia cobriram de glórias."!
Maurício Azêdo"

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Vascainidades:

- No dia 10 de setembro de 1926, o Diário Oficial da União, através da Diretoria da Receita Pública (então receita federal), publicava o indeferimento ao requerimento do Club de Regatas Vasco da Gama para isenção de direitos de importação de cimento para a construção de seu stadium, comprovando o fato sempre alardeado pelos vascaínos: de que até o governo Washington Luiz havia impedido a importação do cimento belga, quando o mesmo fora autorizado para a construção das arquibancadas do Jockey Club, numa clara aluzão ao preconceito com a colônia e ao próprio Vasco.

- No dia 21 de abril de 1977, o Vasco derrotou a equipe do Santos por 3 a 0, na comemoração do cinqüentenário do seu estádio, com portões abertos (como na inauguração em 1927).


*texto originalmente publicado em 20/04/2013 - 08h33m no semprevasco.com

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A CANOA VIOLETA E A CRISE SOCIAL VASCAÍNA DE 1901

A curiosa assembleia presidida pelo delegado





   Há exatos 112 anos era batizada e integrada à flotilha a mais nova canoa de 4 remos do Vasco, a Violeta.

   Como não poderia deixar de ser, o Jornal do Brasil eternizava mais uma vez na memória vascaína o festivo momento que contou com a presença do corpo social, atletas, dirigentes, esposas, filhos, parentes e visitantes de outros clubes, ocorrido nos fundos da primitiva sede da Travessa do Maia, no acesso ao mar da praia do Boqueirão do Passeio. Todos celebrando e semeando o futuro daquele que viria a ser o Gigante da Colina, de onde haveria de se tornar dali a 4 anos o club de regatas mais poderoso do então Distrito Federal.

   Naquele tempo a gestão administrativa era de 1 ano de mandato.  A assembléia geral eletiva para o período 1900/1901 se deu em 26 de agosto, tendo assumido a presidência do clube, a 9 de setembro de 1900, o sr. Leandro Martins, laureado empresário português do ramo de móveis finos, cujo nome foi dado à rua transversal do quarteirão da rua Camerino - onde residiu - com o Colégio Pedro II.  É o único ex-presidente vascaíno que detém tal honraria no centro do Rio de Janeiro.*

   No entanto, apesar dos frutos positivos que ali se estavam plantando, grave crise social – a segunda em menos de dois anos – grassava entre os vascaínos e seus dirigentes.

   Segundo José da Silva Rocha (Rochinha), na sua obra mestre sobre a história vascaína, pretendeu o então presidente, face às debilitadas finanças do clube, otimizar a cobrança de mensalidades, elevar o quadro social, aumentar a receita, bem como introduzir a instalação de luz a gás ou elétrica no recinto da antiga sede.

   Quis a visão do então empresário e presidente - que por amor e paixão permitia que a flotilha do clube fosse sempre reparada pelos carpinteiros de sua fábrica de móveis - implementar também a redução dos cargos eletivos e diretivos do clube, imaginando dinamizar a administração do Vasco.

   Promoveu então a reforma estatutária que conduziria à segunda cisão no clube, onde obteve autorização de uma assembléia realizada às vésperas do natal de 1900 (23 de dezembro), cuja proposta suprimiria vários cargos eletivos da diretoria administrativa - dentre elas a de maior destaque: a diretoria de regatas, além do conselho fiscal então composto por 5 membros, mantendo-se somente os cargos de presidente, secretário, tesoureiro, e 3 componentes com função de suprir os diretores em suas faltas e presidir a Assembléia Geral, com imediata execução estatutária.

   Valendo-se do incauto momento de apoio, Martins obteve a aprovação de tal proposta, gerando uma grita geral daqueles que sustentavam ser um disparate a designação de membros suplentes com a função de presidir as Assembléias, órgãos soberanos universalmente integrado de poder de indicar quem os havia de presidir e dirigir.

   A reação dos opositores da medida foi colossal, em especial do grupo do sócio-fundador José Lopes de Freitas (Zé da Praia), então diretor de regatas, aliado a Lourenço Torres, Carlos Fonseca e de outros nomes contrários à modificação estatutária. Perseguições e punições disciplinares foram aplicadas a diversos opositores que não se dispunham em concordar com o ocorrido.

   A diretoria no entanto continuava a agir e trabalhar. No dia anterior ao batismo da canoa Violeta, foi promovida nas dependências da sede, a apresentação das escolas de natação e ginástica, esta última a cargo do prof. Guilherme Herculano de Abreu.  Surgiram dessa festa os precursores dos aqualoucos, famosos entre os sócios vascaínos até os anos setenta do século passado.

   A oposição acedia freneticamente em reuniões ocorridas no antigo Largo do Passeio, defronte à Travessa do Maia (na atual praça Mahatma Gandhi).  Lograram os mesmos convocar uma assembléia para o dia 24 de fevereiro, com intuito de reverterem a punição aplicada pela diretoria a um sócio, conforme faculdade estatutária.

   Sucedeu que, a pedido da presidência do club e surpresa da oposição, surgiu na assembleia o bacharel Vital de Mello, Delegado de Polícia.

   Rochinha nos conta que tendo o sócio Lourenço Torres tomado a palavra, arguiu com espanto a presença do referido delegado, numa reunião que tinha como propósito a deliberação sobre a vida interna do clube.

   Certo é que a presença do indigitado agente da lei tinha por objetivo intimidar os presentes, mas o tiro saiu pela culatra, tendo o sócio suspenso, Alfredo Corte Real, reavido suas prerrogativas sociais por decisão subseqüente daquela assembleia.

   Por conta dessa situação, o "lider" dissidente Lourenço Torres propôs também que a Assembleia considerasse acéfala a administração do Vasco, por faltar à organização daquela gestão a indispensável legalidade, contrária que era aos estatutos vigentes!

   O delegado-presidente ou presidente-delegado, sem outra alternativa, colocou a proposta em votação, restando aprovada por 90 votos favoráveis contra apenas 16 aos fiéis a Leandro Martins.

   Estava aberta a segunda cisão no Vasco! 


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*Vascainidades:

 (1) O Paiz - 05/02/1901 - "Bella prova de natação – O bravo campeão cyclista e valente remador sócio do Club de Regatas Vasco da Gama, Joaquim José da Silva (Kean) saiu ás 4 ½ horas da manhã de ante-hontem da sede social, a bordo da baleeira Vaidosa, com o intuito de atravessar a bahia a nado, saindo do forte Gragoatá.

Chegando a esse ponto da partida atirou-se o bravo campeão á agua ás 5 horas em ponto, mas, devido á excessiva violencia da corrente, não pôde realizar seu primitivo plano, indo parar á praia Vermelha, onde chegou ás 8 horas e 25 minutos da manhã, tendo portanto feito o longo percurso em 3 horas e 25 minutos, tendo nadado consecutivamente durante todo esse tempo.

Acomparanharam o arrojado moço as baleeiras Vindicta e Odette, do Club Vasco da Gama.

É digno de applausos o denodado Kean, por essa sua nova prova de valor."


(2) O Paiz – 25/02/1901 - "INDISCRETO" – No Club de Regatas Vasco da Gama houve hontem importante assembléa geral.   Ia se tomar conhecimento de um acto da directoria, que impuzera a pena de suspensão a um dos mais estimados sócios do club.

A maioria era contraria ao acto do presidente e a assembléa promettia, por esse facto, ser tumultuaria.

Reccioso de que degenerasse a sessão em conflicto, o presidente solicitou da 4.ª delegacia um auxílio de policia que garantisse plenamente a ordem.

Compareceram um inspector e duas praças.   Mas a humilde autoridade foi metter-se no recinto onde havia a reunião e foi vaiada pelos rapazes.

O inspector, coitado! enxergou horrores na troça que lhe fizeram os moços, que estavam em sua casa e no direito de tomarem deliberações longe das vistas indiscretas de estranhos, e foi dizer ao Sr. Vital de Mello que a autoridade havia sido desprestigiada.

Os Senhores conhecem esse Sr. Vital de Mello.   É uma pilha electrica, quando se trata do seu prestigio delegacial.   E na queixa do inspector elle sentiu que fôra tambem gravemente offendido.  Concentrou-se um instante e, disposto a fazer tudo raso, se tanto fosse preciso, tomou a ultima deliberação de requisitar da brigada policial uma força de infantaria de 30 praças e mais 10 cavalleiros, armados e pomptos para o maior de espadas.

Depois dirigiu-se ao Club de Regatas Vasco da Gama, onde se apresentou com aquelle ar sorberbo de autoridade que nos lhe conhecemos e promptificou-se a presidir a sessão!

Foi uma assembléa divertidissima.   O Sr. Vital dava a palavra, cassava a palavra.  E quem lhe replicasse soffria aquella terrivel ameaça: Cala a boca ou metto no xadrez!

Tudo isso foi de um comico inesperado, delicioso, tanto mais delicioso quanto a força da brigada estava demorando e, apesar da má cara do delegado, os moços, habituados a lutar nobremente com o mar, não se arreceiavam delle.

D'ahi o ridículo da posição do Sr. Vital, que já gaguejava, irritado, vermelho, furioso porque não podia metter toda a rapaziada no xadrez.

Afinal, a sessão acabou e o Sr. Vital, offegante ainda, foi saindo...

Não houve, entretanto, desordem a registrar agora, porque os sócios do Club de Regatas Vasco da Gama acharam muita graça no presidente eventual.


(3) Nosso amigo Fernando Matta, da NetVasco, a quem deixamos nosso agradecimento, nos lembrou, com razão, que o ex-presidente Cyro Aranha também já foi homenageado por nossa municipalidade com o nome de uma rua no bairro de Vargem Grande (13/10/2013).

*texto originalmente publicado em 26/01/2013 - 16h32m no semprevasco.com

UM OUTRO SÃO JANUÁRIO PARA 100.000 PESSOAS

O Stadium Vasco da Gama - 1925



   Muito se tem debatido acerca da demolição do atual Estádio Vasco da Gama, inaugurado a 21 de abril de 1927.

   A sua bela história, a união dos dirigentes e associados para a sua construção, feita de sacrifício e superação, está inscrita para sempre na memória vascaína.

   Sua bela fachada, em estilo neocolonial e tombado pelo município, deverá ser mantida no caso de modernização do complexo esportivo da antiga rua Abílio, atual General Almério de Moura.

   No entanto, o estádio atual não foi o único projeto apresentado aos vascaínos.

   Um outro "São Januário" foi proposto como Stadium Vasco da Gama.  Mais complexo, fachada elaborada, com anel completo, entrada monumental para as arquibancadas, piscinas, quadra de tênis, ginásio etc.

   Iremos, portanto, transcrever abaixo o texto original do esboço do projeto proposto em fins de 1925 para o Gigante da Colina, pelo periódico "Architectura do Brasil":

   Stadium do Club Vasco da Gama (fachada)                                                                       Pedro Paulo Bastos, architecto.


O STADIUM DO CLUB VASCO DA GAMA

espirito sportivo está se desenvovendo cada vez mais entre nós. Breve estara inaugurado o prado de corridas do Jockey Clube, e já outra possante agremiação, como é o Club de Regatas Vasco da Gama, inicia, no bairro de S. Januario, a construcção de um gigantesco stadium, digno, pelas suas proporções, da nossa Capital.

   Por emquanto só podemos publicar o esboço do grandioso projecto elaborado pelo Architecto Pedro Paulo Bastos.

   O edifício occupa 274 metros de frente sobre a rua Abilio e estende-se entre as ruas S. Januario e Ricardo Machado, ficando limitado nos fundos pela rua Bomfim.

   O eixo da planta geral corresponde a uma recta perpendicular ao alinhamento da rua Abilio.

   Occupa a bacia do Stadium, propriamente dito, quasi 2/3 do terreno sendo, a sua forma determinada por quatro rectas parallelas duas e duas e concordadas por quatro arcos de circulo, de raio egual a 35 metros, internamente.

   As archibancadas abrangem 27 metros de projecção horizontal em volta do campo de athletismo, comprehendendo na parte destinada aos socios 36 filas de cadeiras com o espaçamento de 0m,75, e 56 no restante com espaçamento de 0m,50 permittindo assim uma lotação de cerca de 100.000 pessoas.

   A inclinação das archibancadas fixada, segundo as construcções recentes deste genero, por meio de uma curva logarithimica, leva em conta a posição dos observadores, os quaes de qualquer uma das filas poderão avistar um mesmo ponto, convenientemente escolhido, dentro do campo de athletismo.

   O espaço reservado para o football observa as dimensões estabelecidas pela Liga, tendo mais nas cabeceiras respectivamente, dois campos de baskett-ball e dois para tennis, que servirão unicamente nos campeonatos.

   Circumdando o campo principal desenvolve-se a pista para corridas a pé com uma extensão de 480 metros em linha recta.

   A circulação, tanto do publico como dos socios, é feita em volta da bacia por meio de tres passagens; uma na base, com 1m,75 de largura, outra no meio, com 2m,20 (que será aproveitada para collocação de camarotes) e a ultima correspondendo á pergula que se vê na fachada principal.  As entradas dão diretamente nestas tres passagens podendo o publico conforme quizer, ter acceso a qualquer parte das archibancadas por meio de escadaras internas, sem ter de percorrer as filas de cadeiras.

   Esta organisação é observada nos estabelecimentos congeneres da America do Norte com o fim de facilitar o transito.

   O escoamento rapido do Stadium é garantido pelas mesmas vias destinadas ao ingresso e mais por quatro grandes passagens descobertas dirigidas segundo as flexas dos arcos de concordancia do perimetro e por duas outras, collocadas nos centros das cabeceiras, como se vê na planta geral.

   A elevação apresentada corresponde sómente a um trecho de 114 metros de archibancada, sob a qual serão collocados os serviços das partes athletica e social.

   A primeira, situada no andar terreo, consta das accomodações destinadas aos dois teams, visitante e residente.

   As do residente mais amplas, com grande dormitorio com capacidade para 32 pessôas; pharmacia de urgencia; serviço de copa; toilletes; rouparia; vestuario; banheiros e apparelhos sanitarios tem uma entrada independente e communicação subterranea exclusiva para o campo.

   Ahi encontram-se igualmente, a parte destinada aos juizes, com entrada independente e communicação tambem directa, para o campo; secção infantil de athletismo e escotismo; policia de campo; bar e restaurante; para o publico e para os socios.

   A parte social, situada no segundo pavimento, comprehende dois salões destinados ás reuniões sociaes e outro da directoria; toilletes; etc.

   Completando o conjuncto da planta geral, existem os annexos do Stadium; á esquerda, pela rua S. Januario, ha grandes campos de tennis; á direita, além de campos de athletismo, fica collocada uma grande piscina descoberta de 30 metros por 40 metros, marginada lateralmente por archibancadas, e um stand de tiro com cabines para os atiradores.

   Foi projectada, deste lado, uma grande avenida, que vai desembocar na cabeceira do campo, e terá para ornamental-a, as estatuas dos athletas mais notáveis.

    Na parte opposta á fachada principal, dando para a rua Bomfim, ergue-se um portão monumental onde ficarão collocadas as borboletas que dão ingresso as archibancadas geraes.*




   Stadium do Club Vasco da Gama (planta geral)                                                                Pedro Paulo Bastos, architecto.

*grafia original da época.
**texto originalmente publicado em 02/11/2012 - 14h43m no semprevasco.com

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A PRIMEIRA FOTO!

Jornal do Brasil fez o primeiro registro fotográfico do Vasco ao final do século XIX (Atualizado em 06/06/2015 - clique aqui)


   Em setembro de 1900, último ano do século XIX, o Jornal do Brasil publicava o primeiro registro fotográfico do Club de Regatas Vasco da Gama, marcando para sempre a memória vascaína.

    Era a época de comemoração do segundo aniversário do club.

   O pic-nic festivo foi realizado na Ilha do Governador - domingo, 16 do citado mês, onde festejaram os primeiros sócios fundadores e atletas, devidamente uniformizados, acompanhados de seus familiares.

   A família vascaína para lá se dirigiu através da barca Sexta que saiu do antigo Cais Pharoux, na Praça XV.

   Interessante notar que a guarnição da baleeira Vascahina, vitimada posteriormente em um trágico naufrágio nas águas revoltas da Guanabara, ainda utilizava-se do uniforme com a faixa diagonal a tiracolo no sentido ombro direito. No entanto, em uma das fotos, já havia atleta uniformizado que abotoava a faixa a tiracolo como atualmente, a partir do ombro esquerdo. Isso tudo ao final no século XIX.

  Seguem abaixo as fotos históricas de um Vasco recém nascido, que já havia passado por sua primeira cisão após a mudança de sua garagem-sede na Ilha das Moças para a Travessa do Maia, no então Largo do Passeio, de onde despontou para a glória!





*Vascainidades:

"Como estava anunciado, realizou-se hontem a esplendida festa projectada para solemnizar as victorias alcançadas na regata do Campeonato e commemoração do segundo anniversario do club.

 Ás 11 horas da manhã a barca Sexta, garridamente empavezada, desprendeu-se das amarras da ponte Ferry e singrou em direcção á corveta Sarmiento, onde a directoria do club foi convidar a respectiva distincta officialidade para tomar parte no pic-nic projectado.

 A directoria foi recebida cordialmente por parte dos illustres representantes da marinha argentina, que foi calorosamente brindada pelo Sr. Luiz Vianna, 1.º secretário do club, sendo esse brinde corrrespondido pelo capitão Gard, immediato do Sarmiento, que saudou o Club Vasco da Gama.

 Em seguida a barca Sexta poz-se de novo em movimento, levando a seu bordo os guardas-marinha argentinos Alberto Ibarra Garcia, Angel N. Caminos e Luiz Segurra.

 A banda de infantaria de marinha ao passar a barca pela Sarmiento executou o hymno argentino, sendo respondido pela banda do Bello vaso de guerra com o hymno nacional.

 Á 1 hora da tarde chegou a Sexta á ilha do Governador, onde na residencia do Sr. Antonio José de Souza Gomes, foi servido lauto almoço, trocando-se por esta occasião vários e enthusiasticos brindes.

 Entre elles pudemos notar o do Sr. Baldomero Fuentes á marinha argentina e do guarda-marinha Angel Caminos á imprensa brazileira.

 A este brinde agradeceu o Sr. Julio Barbosa, representante d'O Paiz e da Semana Sportiva.

 O 2.º Tenente Mario Gama saudou a officialidade do Sarmiento e o Sr. Julio Barbosa a imprensa platina.

 Findo o almoço, iniciaram-se as dansas que animadamente se pronlongaram até á tarde.

 A gentil senhorita Adelina Monteiro Castro, coadjuvada pelo galante menino José Teixeira, esmolou para as vítimas da secca do Ceará, angariando a importância de 252$, que foi entregue ao Sr. Baldomero, do Jornal do Commercio, para dar-lhe o devido destino.

 A barca Sexta, chegou a esta cidade ás 8 horas da noite.

 Pouco depois por diante do nosso escriptorio os sócios do Club Vasco da Gama, acompanhando um bello grupo de gentis senhoritas e precedidos da banda de musica de infantaria de marinha, passaram alegremente, erguendo vivas e enviando-nos amaveis saudações, que agradecemos." (O Paiz – 17/09/1900)

*texto originalmente publicado em 30/11/2012 - 11h35m no semprevasco.com

A PRIMEIRA ESTRELA!

Uma Estrela de Ouro, Símbolo das Vitórias do Vasco



   Até o ano de 1945, o Club de Regatas Vasco da Gama já detinha gloriosos títulos, mas seu pavilhão era o mesmo desde a sua fundação: campo negro, representando os mares desconhecidos; faixa diagonal branca iniciada do topo da tralha (da bandeira) até o canto inferior, representando "O Caminho para as Índias", desbravado pelo heróico Almirante.

   E finalmente a Cruz de Malta (assim assinalada por uma designação heráldica que era de uso comum a todos desde antes da fundação do club no final da última década do século XIX, e que em verdade representa a Cruz de Cristo, símbolo da mesma Ordem que alçou os mares nas conquistas portuguesas).

   O jornal "A Gazeta de Notícias - nos Esportes", na sua edição de 22 de dezembro de 1945, assim registrou a história do surgimento da "Primeira Estrela!":


"A ESTRÊLA DE OURO", SÍMBOLO DAS VITÓRIAS

   Os que foram anteontem ao estádio de São Januário assistiram a uma cerimônia brilhante: o pavilhão do Vasco, aberto num dos ângulos daquela praça de desportos, apresentava um pouco acima da cruz de malta uma estrêla de ouro. A solenidade era nova para o público. Dois possantes holofótes despejavam jôrros de luz sôbre a bandeira do clube campeão de mar e terra. A estrêla era o sinal, traduzia um movimento esntusiástico do "Expresso da Vitória".

   Por isso procuramos o "Cordinha". Êle não se fêz de rogado.

Artur da Fonseca Soares - O "Cordinha"

UMA IDÉIA FELIZ DO DR. JOSÉ DO AMARAL OSÓRIO

   E Artur da Fonseca Soares, dá-nos, então, os informes sôbre o acontecimento:

  - Pouca gente compreendeu a significação daquela estrêla colada no pavilhão do Vasco. Ela simbilizará a fôrça das nossas conquistas no desporto brasileiro. Grande número de sócios do Clube pedirão ao Conselho Deliberativo que seja oposta uma estrêla de ouro no pavilhão para marcar o título de campeão invicto de futebol e assinalar o campeonato de remo, como ainda o ano de 1945, das maiores glórias cruzmaltinas. A idéia é do Dr. José do Amaral Osório e a iniciativa do "Expresso da Vitória", que possui em Ciro Aranha, sua figura máscula e muito tem realizado com auxílio de João de Lucas, e Marçal de Almeirda. A campanha do "Expresso da Vitória" vai para o meio milhão de cruzeiros. Essa importância será distribuída pelos jogadores campões citadinos.

José do Amaral Osório

   Há ligeira pausa. E Artur da Fonseca Soares pede-nos para tornar público os agradecimentos do "Expresso da Vitória" pela atenção das autoridades militares, principalmente do Coronel Sena, que tem distinguido o Vasco com as melhores atenções. Os holofótes que abrilhantaram a cerimônia de anteontem foram cedidos por ilustres oficiais do Exército."

   Para que se tenha noção do acontecido e de sua importância naquela noite de quinta-feira - 20 de dezembro de 1945, o júbilo vascaíno foi antecedido por uma magnífica carreata desde o centro da cidade até as dependências do Estádio Vasco da Gama, que assim glorificou para sempre na memória vascaína aquele fim de ano do Expresso da Vitória!

*texto originalmente publicado em 25/09/2012 - 21h55m no semprevasco.com